Trans

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Foi concebido como Conto, mas não se sentia pertencente a esse gênero.

Tinha a percepção de que os personagens que trazia dentro de si não estavam unidos por uma narrativa com início, meio e fim. Sentia-se na obrigação de ser prosa mas ansiava por poder ter, sei lá, umas ousadias poéticas.

Gostava de pensar em si mesmo como Crônica, uma reflexão sobre o cotidiano, um olhar subjetivo acerca dos acontecimentos. Mais intimista, mais coloquial, sabe? como se conversasse com o leitor. E, independentemente do que tivesse a dizer, gostava mesmo de falar é do tempo – não o da meteorologia ou o do relógio, mas o da alma. Tratava do momento, daquele instante banal que de banal nunca tem nada.

Buscava na poesia uma definição para si: queria atingir as grandezas do ínfimo. Não necessariamente ter que contar uma história, mas divagar. Usar uma lente macro, não uma grande angular. O microscópio, em vez da fita métrica.

E queria, mais que tudo, poder ser irônico, sem que olhassem para ele com ar de desaprovação ou de “sei não”.

Resolveu procurar ajuda.

Nos classificados, encontrou um anúncio de alguém que dizia resolver todos os problemas de gênero. Tentou agendar o horário, mas o atendimento era por ordem alfabética.

Foi atendido ali pelas 10 horas, logo depois do Auto e da Comédia. Mas sua primeira sensação foi de frustração.

– Seu gênero é o… deixe-me ver… masculino. Pronto. São R$ 250,00. Pode acertar com a minha secretária, na saída.

– Mas dr. Dicionário, minha questão de gênero não era bem essa.

– Filho – e neste ponto o Dicionário olhou-o por cima dos óculos, com os olhinhos miúdos imprensados entre o aro grosso de tartaruga e as espessas sobrancelhas – eu sou especialista em gênero, número, categoria gramatical, com mestrado em sinônimos e antônimos, doutorado em campo semântico, e pós doc em etimologia, feito em Harvard, além de ser, eventualmente, bilíngue. Como ousa questionar que sua questão de gênero não seja esta? Não vá me dizer que…

– Sim. Eu sou posso ter nascido um Conto, mas, no íntimo, me sinto uma Crônica.

– Um transgênero literário – murmurou, desconsolado, o velho glossário.

– Sou um Conto infeliz, amarrado às convenções sociais de ter um enredo único, uma construção psicológica de personagens, um final súbito. Queria ser Crônica, leve, fluida, apenas um recorte sutil do cotidiano…

– Já tive um caso assim. Há muitos anos. Um Romance enorme, enfadonho, um catatau deveras indigesto. Sua vocação era ser Novela. Mas seu pai, o Autor, sonhava ter um filho Romance, e o encheu de parágrafos obsoletos, digressões supérfluas. Um saco.

– E…

– Encaminhei-o a um Editor, que lhe fez uma bariátrica nos capítulos desnecessários e depois cortou os excessos estilísticos. Só de adjetivos inúteis deu para tirar quatro resmas. Converse com ele. Quer dizer, com ela.

– E onde posso encontrá-la?

– Você passou por ela na minha sala de espera. É a minha secretária, aquela jovem esbelta, de cintura de pilão, seios arfantes e pernas bem torneadas. Quem a vê jamais dirá que que um dia foi um Romance adiposo, lento e verborrágico. Ela poderá lhe indicar um Editor de confiança.

– Obrigado, dr. Léxico.

– Sem formalidades. Pode me chamar de Pai dos Burros.

Despediram-se com um amplexo e tão logo o Conto retornou à antessala e pôs os olhos na Novela, sentiu que, quem sabe com mais algumas páginas, um aprofundamento, podia se tornar uma… Não, não. Novelas usam decotes voluptuosos, e ele preferia ser uma Crônica que bota uma camiseta e sai por aí sem sutiã. Novelas usam saltos altos, e ele preferia caminhar descaço pela areia do Tempo (não, “pela areia do Tempo” é muito lugar comum, e crônicas devem fugir desses clichês).

A Novela passou-lhe, discretamente, o cartãozinho de um Editor lacaniano, muito hábil na interpretação – e no corte – das palavras, e desejou-lhe, romanticamente, sutileza e frescor na nova vida.

O Conto agradeceu, enrubescido (Contos enrubescem; em breve, ele seria uma Crônica, e Crônicas apenas sorriem sarcasticamente, revelando a covinha no rosto).

A Novela abriu a agenda, suspirou, e mandou entrar o próximo cliente. Eram duas Quadrinhas e dois Haicais que tinham se conhecido num aplicativo de relacionamentos e cismaram que, juntos, dariam um Soneto.

“Nem tudo neste mundo tem jeito”, pensou, fazendo uma rima péssima – enquanto imaginava que talvez, sem o implante de silicone nem os hormônios, com um pouco de malhação para queimar advérbios localizados, uma barba de 2 dias e nenhuma maquiagem, até que ela mesma daria um Conto muito bem apessoado.

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