Muçarela

mussarela

Escrevi “cozer”, e não “coser”, num texto. Ninguém reparou – ou, se reparou, ficou sem jeito de avisar.

“Cozer” é cozinhar; costurar é “coser”.

É bom quando alguém aponta um erro, e impede que ele se perpetue.

Mas há casos e casos. Às vezes erro porque quero, porque o errado me soa melhor, e eu o promovo a certo.

Mussarela ou muçarela? O dicionário pode dizer que a grafia correta é a segunda, mas meus olhos, meus ouvidos e meu paladar discordam veementemente.

Se na prateleira houver uma embalagem de mussarela e outra de muçarela, compro a primeira. “Muçarela” não dá pra engolir. Não desce.

Não foi sem resistência que passei a dizer e escrever “caverna” e “cuspe”, em vez de “gaverna” e “guspe”, lá pelo primeiro ano primário. Quem inventou que guspe e gaverna se escreviam com C é porque nunca guspiu ou engatinhou por gavernas no fundo do quintal.

Há “erros” que não são erros: são variantes. Ir “na rua” e “no cinema” é muito diferente de ir “à rua” ou “ao cinema”, o que exigiria tomar banho, pentear o cabelo, botar roupa de domingo.

Andar “de cavalo” e “a cavalo” – tem comparação? Num você monta e vai, no galope; no outro tem que se paramentar todo, e seguir empertigado, como se escoltasse a carruagem real.

Birra com a empregada ou com a tia se faz dizendo “você não manda ni mim”. É nesse “ni” que se peita a meia-autoridade e a gramática de uma vez só. Aí nasce o verdadeiro “cavaleiro que diz ni”, muito superior ao que se sujeita a dizer “em”.

“Nós tudo” é muito mais inclusivo que “todos nós”. “Tudo” não deixa dúvida: somos todos nós e tudo o mais que houver.

Era preciso um dicionário à parte, uma gramática exclusiva para esse idioma no qual o que conta é o valor afetivo (e efetivo), não a etimologia ou o que pontifica aquela senhora chata, a Norma Culta.

D. Norma nunca entendeu que “dê-me um copo d’água” é uma ordem, e “me dá um copo d’água” é um pedido. Se não são a mesma coisa, não podem ser ditos da mesma maneira.

D. Norma não sabe que “eu irei” é coisa de político em cima de palanque, prometendo tudo para um futuro longínquo, hipotético e improvável. O futuro imediato das coisas do mundo real se resolve é no “eu vou ir”. Ou no “vou vim”, que é das locuções mais lindas que o idioma poderia ter inventado.

D. Norma não tem mais o que fazer na vida. Exige que se escreva “maisena” quando qualquer mingau que se preze é feito com Maizena. Não percebe que “peneu” tem mais ar que “pneu”; “tinha chego” é porque estava com tanta pressa que de outra forma não teria chegado; “tinha pego” indica que pegou com mais apego do que se tivesse pegado.

D. Norma não vê isso. Pode até ser culta, mas é cega. E surda.

Se a voz do povo é a voz de Deus, Deus deve de falar assim, deixando cada palavra buscar na língua, no lábio, no palato, a consoante ou a vogal que melhor se encaixe.

Se você se arrepende, arrepia, arredonda, por que vai abrir mão de arreparar, arrepetir, arrenegar?

Pode corrigir sem dó se eu trocar de novo “coser” por “cozer”, “intercessão” por “interseção”, “tachar” por “taxar”. Mas se vir mussarela, cucuruto e mixirica, deixe quieto. Nessa hora eu não aceito argumento e luto até a morte pelo direito inalienável de permanecer errado.

 

(publicado originalmente em 17 de abril de 2018)

Figuras mitológicas e onde bebem

bromance

São Paulo tem um bar g0y.
Não sei como se pronuncia esse zero aí entre o G e o Y
Leio como se fosse gói, que é modo de os judeus se referirem aos não-judeus (ou gentios, que é o mais gentil dos pejorativos).

G0y é o sujeito que gosta de homem mas não é gay.
G0ys gostam de se pegar, mas na base da broderagem.

Rola muito em academia: o cara não aperta a mão do outro: vai logo no peitoral. E pega como se estivesse sovando pão, sabe como? Pega com pegada. Mas sem desejo.
Não é por se aproximar do Nirvana quando o suor da testa de um pinga na nuca do outro que vão trocar postagens fofas no dia 12 de junho. Não vão dormir de conchinha, ajustar reciprocamente os nós das respectivas gravatas, pedir para esfregar as costas na hora do banho, roçar joelhos no cinema.
Eca.

O g0y gosta de cachorro quente, mas sem a salsicha, se é que vocês entendem a sutileza da metáfora. É só pão e ketchup. A batata palha é opcional.

Existe também o h0mem (como nos captchas e nas malditas placas padrão Mercosul, isso aí é um zero perdido no meio das letras).

O h0mem, descobri esta semana, não pega na cintura da mulher ao lado na hora da foto. Pega no ombro. Porque abraçar pela cintura é uma espécie de abuso, quase estupro.

Isso não fui eu que inventei: está num blogue de uma feminista, cujo nome não vem ao caso porque não endossar tudo que uma feminista diga é coisa de macho nojento (o antípoda do h0mem).

O h0mem é a versão 2.0, revista e melhorada, do antigo macho opressor, só que agora sem macheza ou opressão.
É o macho escroto desconstruído, repaginado, desossado, descarnado, pasteurizado, lavado a seco e enxaguado com Comfort.

Ele ama as mulheres da mesma forma que um g0y ama outro: de igual pra igual e, se possível, sem sexo tal como o conhecemos.
Não me pergunte como é esse tal sexo sem papéis sexuais, porque eu sou modelo 1959 e não vim com esses opcionais de fábrica.

Esse novo h0mem também é chamado de homão da porra.
Ele lava, passa, cozinha, caseia, chuleia e prega botão.
Carrega o bebê amarrado ao corpo naquela tipoia (o nome técnico é sling) e usa vocabulárie neutre para combater e machisme estrutural de idiome.

Ele não precisa ser aquele macho estereotipado que conhecemos em casa, no trabalho. Nada a ver com seu pai, seu marido, seu irmão, você.
Ele pode passar hidratante no cotovelo, usar máscara facial de camomila, chorar em filme com a Jennifer Aniston e tomar sol de bruços sem que isso abale sua masculinidade.

Ele não acha mulher feia, porque é machismo, nem bonita, porque é objetificação.
Nem gorda, porque é gordofobia, nem magra, porque é submissão à ditadura da beleza.
Ele simplesmente não acha mulher, eu acho.

Breve abrirá (certamente em São Paulo) um bar para esse tipo de h0mem tomar cerveja sem álcool ou uísque artesanal (tem de maracujá com hortelã, de groselha e de gengibre) com os amigos depois do expediente – todos com os respectivos bebês envelopados junto ao corpo com o sling de fibras naturais sem tingimento e produzido sem exploração animal.

Tem também o esquerdist@, que acredita que o futuro da humanidade dependa da solidariedade entre os povos e do fim do capitalismo, mas não aceita ser confundido com petista, bolchevique, bolivariano e algum genocida do bem. Ele não tem preconceito de sexo (até porque sexo não existe, é gênero que chama), de raça (somos todos iguais, respeitada a escala Pantone na escalação de elenco para interpretar personagens da vida real) ou de origem social (trata a empregada como se fosse da família e cumprimenta o porteiro – o… o… como é mesmo o nome dele?).

Ao contrário do esquerdista, que apoia Lula cegamente, o esquerdist@ faz ressalvas ao PT, por ter andado naquelas más companhias. Não fosse isso, não teria havido mensalão, petrolão, lavajato, serjomoro, nenhum desses infortúnios. O esquerdist@ não entra no mérito se Lula é inocente ou culpado (o problema foram as más companhias, lembra?), mas enfatiza que não houve um julgamento justo e imparcial (tipo assim, feito pelo Gilmar, o Toffoli e o Lewandowski).

O esquerdist@ é crítico em relação à situação da Venezuela (nada disso estaria acontecendo se não fosse o bloqueio estadunidense, e tem gente que se joga na frente dos tanques só para depois postar no insta). Acha que o golpe de 2016 poderia ter sido evitado (o machismo estrutural é que não foi devidamente problematizado na época) e que é claro que não dá para comparar Bolsonaro a Hitler e Mussolini, porque não tinha whatsapp naquela época, e o whatsapp tornou o fascismo alemão e o nazismo italiano um rascunho desta arte final que estamos vivendo agora.

Nem todo esquerdist@ não performador da heteronormatividade é g0y (ele, inclusive, acha que o g0y é o isentão, o inocente inútil do movimento LGBTQ+). Mas certamente é h0mem, se for do gênero anteriormente conhecido como masculino.

O esquerdist@ acha justo linchar quem discorde dele, porque o ódio do bem é um conceito que suas vítimas não têm lugar de fala para contestar. Ele não em problemas com ironia – apenas acha que trata-se de uma espécie de argumento de autoridade disfarçado, e se recusa a compactuar com o senso de humor, que é o último refúgio da elite.

Qualquer hora dessas, o UOL vai informar que foi aberto (adivinha onde?) um bar em que h0mens g0ys esquerdist@s possam se encontrar, se saudar com socos no peitoral (tomando cuidado para não acertar a pequena Maria Frida, encapsulada em seu sling de fibra de cânhamo), tomar café descafeinado e discutir o socialismo democrático e novas estratégias para tirar Lula da cadeia, depois que nem ONU nem o papa nem o ráquer russo deram jeito.

Haverá na parede ao fundo, entre a foto da girafa sem pescoço e do unicórnio sem chifre, um alvo com a cara do Celso de Mello, para o jogo de dardos.

Auspícios

augurio

Os sinais de intolerância que temos tido não são nada auspiciosos.

Uma ameaça aqui, uma manipulação ali, um movimento suspeito acolá.

E os abutres nos sobrevoando, em círculos.

Auspício era, originalmente, isso: interpretar o que os deuses queriam nos dizer através do voo das aves.

Uma águia que pousasse no ombro da estátua de César, em Roma, não significava uma águia precisando tomar fôlego ou ir ao toalete: era claramente uma tuitada de Júpiter.

Para traduzir a mensagem divina, consultava-se o áuspice, o expert, o adivinho.

Não se iniciava uma guerra, ou se contratava um casamento – que também é uma atividade bélica – sem “tomar os auspícios”. Se desfavoráveis, guardavam-se as lanças e os bem-casados, e aguardava-se ocasião mais propícia.

A menos, claro, que você fosse um Júlio César, para quem não havia auspício ruim: ele criava uma narrativa que lhe fosse vantajosa e tanto fazia que a águia voasse para a esquerda ou para a direita, sozinha ou em bando, em estilo crawl ou cachorrinho, ele ia em frente. Foi assim que conquistou meio mundo.

Hoje, para saber o que nos reserva o futuro, consultamos os Antagonistas, os Catraca Livre, os Mídia Ninja, os MBL. Eles é que interpretam o significado de uma revoada de patos amarelos tomar a Avenida Paulista, um tucano abrir o bico, um defensor de arapongas ficar de bico fechado.

Auspícios nunca saíram de moda, mas acabaram perdendo mercado para uma nova ciência, a hepatoscopia.
Nela, os adivinhos (os arúspices) decodificavam a vontade divina pela análise do fígado de aves – e de touros, carneiros, cabritos.

Porque o fígado costuma falar mais alto que o coração.

Na aruspicia, coitado do mensageiro. Era estripado vivo – ou, no caso dos quadrúpedes, levava uma marretada, e até o lado para o qual pendesse tinha um significado específico. Mais ou menos como acontece hoje nas redes sociais quando se compartilha alguma coisa sem checar a fonte.

Um pouco menos invasivos (e dolorosos) eram os augúrios, que consistiam em decifrar o canto das aves – daí ainda falarmos em “aves de mau agouro”.

Um general, por exemplo, não pode dar um pio sem que os agourentos de agora prenunciem intervenção militar.
Uma presidente do Supremo afirma que todos estão sob as penas da lei, e ali está um sinal inequívoco de que não vá aguentar o tranco.

Não é porque acabei de acabar de ler o fabuloso “A vida dos doze Césares”, de Suetônio (de onde tirei toda essa cultura inútil) mas acho que os abutres que andam rondando cadáveres recentes – e mesmo cadáveres adiados – mereciam mais atenção dos áuspices, áugures e arúspices de plantão.

 

(publicado originalmente em 20 de março de 2018)

Margens plácidxs

margens

– “Ouviram do Ipiranga as mar…

– Não, Joaquim Osório. Definitivamente, não. Com esse “ouviram”, você exclui as pessoas com deficiência auditiva. Vamos mudar para “Aconteceu às do Ipiranga plácidas margens…”

– Acho que a métrica e o ritmo perdem um pouco, Francisco Manoel.

– Cuide da letra, que da música cuido eu. Continue.

– “De um povo heroico o brado retumbante”.

– Você e essa sua obsessão auditiva!

– Mas é que houve um grito do Ipiranga, não um perfume do Ipiranga, um toque do Ipiranga, um gostinho do Ipiranga…

– Não importa. O hino tem que ser inclusivo. Não é só dos que têm ouvido absoluto.

– Mas depois eu falo que “O sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátr… “

– Aí você exclui, de uma tacada só, as pessoas com deficiência visual e aquelas com transtorno de fluência, que terão dificuldade com tanta proparoxítona.

– Quer dizer que não dá pra usar fúlgido, vívido, límpido, esplêndido, símbolo, flâmula?

– Sem chance. Proparoxítona é instrumento de opressão, é preconceito linguístico e elitismo no úrtimo.

– Mas o Chico Buarque…

– O Chico Buarque nem nasceu, e quando ele escrever uma música cheia de proparoxítonas, os seguidores dele criam uma narrativa e justificam tudo. Tira as proparoxítonas.

– Tá bom. Aí vem “Conseguimos conquistar com braço forte…”

– Que #$%@* é essa, Joaquim Osório? “Braço forte”. Eu, hein!

– Calma, que depois eu compenso com “Em teu seio, ó liberdade…”

– Aí deixa de ser homoafetivo pra ser bissexual. Braço forte também pode soar ofensivo a quem tem distrofia muscular ou não frequenta academia. E o lance do seio vai pegar super mal com quem teve que se submeter a mastectomia ou botou um implante de silicone industrial.

– Não menciono nenhum sentido, nenhuma parte do corpo, então?

– Melhor não. Sem contar que falar em bíceps e mamas pode dar uma conotação sexual, e temos que pensar nos atletas de Cristo, nos que escolheram esperar, nas pessoas com disfunção erétil ou do desejo sexual, e nos que não conseguem pegar ninguém.

– Aí vem um trecho bonito, ó: “Em teu formoso céu, risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece”.

– Por que valorizar o formoso, depreciando o esteticamente desfavorecido? Para quê enaltecer o risonho, em detrimento dos odontologicamente deficitários? E que bairrismo futebolístico é esse de falar só do Cruzeiro?

– Mais adiante eu falo do “florão d’América”.

– Mas continua discriminando os torcedores do Atlético Mineiro. Tínhamos combinado que não era para misturar hino e futebol, Joaquim. Corta. Essa parte do “Gigante pela própria natureza” discrimina as pessoas verticalmente prejudicadas (ou os não muito bem dotados). Corta. O “és belo” reforça a ditadura da beleza. Corta. Esse “és forte”… Putz, isso aqui é o hino nacional, não uma competição de halterofilismo ou o show dos leopardos! C-o-r-t-a.

– Bom, Francisco Manuel, se as alterações são só essas…

– E a segunda parte?

– Mas Chico…

– Me dá essa letra aqui. Hmmm… “Berço esplêndido” é elitista, e marginaliza os que têm que colocar o filho para dormir na cama do casal por não dispor de verba para adquirir nem um bebê conforto. Corta. Voltou a falar em “Ao som do mar e à luz do céu profundo”, sem consideração pelas pessoas privadas da audição e da visão. Corta. Esse adjetivo “límpido”, não bastasse ser proparoxítona, segrega os de hábitos higiênicos diferenciados. Corta.

– Chico…

– “Amor eterno” é bullying com os que levaram um pé-na-bunda. Corta.

– Deixa pelo menos o refrão, ou vou ter que refazer tudo. Esse não tem nada pra corrigir: “Dos filhos…

– … e filhas.

– “… deste solo…”

– … e desta terra.

– “…és mãe…”

– … biológica ou adotiva.

– “… gentil…”

– … mas podendo expressar democraticamente sua agressividade.

– “…pátria amada…”

– … pátria e mátria, amada, amado e amadx.

– “…Brasil!”

– Ótimo. O “Brasil” ficou bom. Essa parte pode deixar. Mas o resto você conserta, por favor. A gente nunca sabe que revertério pode dar neste país, no futuro, e não quero ninguém criticando o nosso trabalho.

 

(publicado originalmente em 26 de abril de 2018)

Direito e avesso

molde

O universo não se dividia, então, em luzes e sombras ou entre o Bem e o Mal, mas nos domínios do masculino e do feminino, representados pela máquina de escrever e a máquina de costura.

A primeira comandava o escritório do meu pai; a segunda, o quarto da minha mãe. Uma cercada de livros e silêncio; outra, de retalhos coloridos, música e risos.

Escrever, com os indicadores catando milho nas teclas da Remington, exigia concentração – ali, no âmbito das leis, não éramos bem-vindos. Nosso lugar era no chão, de tesoura da mão, recortando figuras das revistas de moda, aos pés da Singer.

Cada um desses mundos tinha seu vocabulário próprio, seu dialeto. Cerzir e sursis, corpetes e habeas corpus, evasês e evasões – palavras que se aproximavam, sem jamais se tocar.

Junto ao pedal da máquina de costura, imperava aquilo que mais tarde soube chamar-se francês: godê, plissê, cotelê, croqui. Nos raros momentos sob a escrivaninha, prevalecia o que desde sempre se chamou latim: animus, caput, data vênia, de cujus, pari passu, causa mortis, sine die.

Havia uma palpável hierarquia entre a matéria – o pano, a pence, o pesponto – e o espírito. Entre o braçal da carretilha, da agulha e do dedal, e o reino da autoridade intelectual, da retórica, da persuasão.

Essa divisão era ancestral: minha avó regia a roupa no varal, a labuta na cozinha, e meu avô, as conversas no salão, a posse do dicionário, as palavras cruzadas no jornal.

Um desses espaços era mais sentimental e mais lúdico: o do soutache, do ilhós, da passamanaria. Do cós, do viés, da sianinha, da lapela, do vivo, do gavião. Das revistas coloridas (o outro mundo não tinha figuras). Da tesoura que fazia ziguezague – da própria palavra ziguezague.

O outro mundo não oferecia grandes diversões além do perfurador, com o qual se podia fazer confete: não era permitido tocar a caneta-tinteiro, a carimbeira, o mata-borrão.

O mundo do papel manilha era melhor que o do papel almaço. A Burda, mais agradável de folhear que qualquer processo.

O quarto de costura era nosso quintal; o escritório, a sala de visita. Este, o território do não; aquele, o do sim. Um, o dos livros fora do alcance, na estante – o outro, o de sentar no chão, entre cortes de cambraia, retalhos de feltro, amostras de cetim.

Apesar de estar lá a cultura, de lá ficarem as letras, foi no lado de cá que se deu a descoberta de que cada palavra tem sua textura, seu caimento.

Assim o morim, a chita e o riscado, tão distantes da organza, do tafetá, do organdi – não só ao tato, mas também ao ouvido. Assim o linho e a flanela (ele, ríspido; ela, suave), o impecável poliéster e o suscetível algodão.

O mundo do Direito e o do avesso, o das Cortes e o da costura, o das Leis e o das linhas acabaram por se coser num só, este em que se pode chulear as frases, rematar sentenças e nelas ir alinhavando ideias e pregando as palavras como quem prega botão.

 

(publicado originalmente em 11 de abril de 2018)

Português de grife

grife

Tem hora em que eu queria falar português.

Não o daqui, este genérico, mas o de lá, o de marca.

Sem gerúndios, como os ministros do Supremo, que estão sempre a coligir, jamais recolhendo; sempre a cogitar, jamais pensando.

Não passar, como passo, horas na frente da tela do computador, mas diante do écrã.

Usar “saber” com o sentido de sabor, e estar a dizer “Isto sabe a grelos”.

Sim, também queria poder estar a usar a palavra “grelo” em seu sentido vegetal.

Conseguir dizer “queria ter consigo” sem que me olhassem como se estivesse a falar grego (significa “quero estar com você”, em tradução livre para o português de cá).

E, claro, abusar da segunda pessoa. Não só do pronome, como fazemos aqui, mas também do verbo. Nada de “tu vai”, “tu viu”, “tu foi”: vais, viste, foste – e tudo isto chiando – ops, a chiar – feito uma panela de pressão no cio, igual mineiro depoix de doix diax de fériax no Rio.

Ter a chance de mandar e desmandar com dois imperativos, o afirmativo e o negativo:

– Vai-te embora! Não, não te vás.

Aqui são iguais:

– Vá embora. Vá embora não.

E a gente nem usa o imperativo, porque prefere pedir, e com jeitinho.

Queria poder aplicar na vida real aquelas conjugações todas que a gente é obrigado a aprender para aplicar só na prova.

Usar “a gente” no sentido de “os outros”, não de “nós”. E usar “nós” de vez em quando, em vez de “a gente”.

Ah, como eu queria uma chávena, em vez de uma xícara. De chá, de preferência, porque chávena de chá é o que o há de mais chique.

Atender o telefone e dizer “Estou”, como se fosse possível atendê-lo não estando.

Valer-me dos pronomes oblíquos e usá-los em lugar de usar eles.

Falar “seu” no sentido de “dele”. E quando alguém disser “Ele levou seu cão a passear” não ter dúvidas de que ele tenha levado o cachorro dele, não o Tião – que, de vira-lata, seria promovido a rafeiro.

E dizer, no acto, que estou convicto que o facto, de prompto, não causará impacto – assim, cheio de soluços, de estalidos na fala.

E ser arquitecto, talvez escriptor (acho que essa eles nem usam mais, mas eu usaria, porque, como eles, me negaria a adoptar o Accordo Ortographico, e ressuscitaria tranqüilamente o trema e o acento grave sòmente por pirraça, para provar que a língua é minha e ninguém tasca).

A propósito, usaria tasca como taberna, jamais como conjugação do verbo tascar, que no português de lá acho que nem existe.

Complicado seria misturar os idiomas e dizer que a gira é gira, que tinha uma bicha na bicha, que o cacete era do cacete. Enfim, essas confusões de todo bilíngue. Ops, bilíngüe (e dá-lhe brigar com o corrector do telemóvel, que teria que ser actualizado para o português que falávamos aqui cem anos atrás).

Queria muito partilhar este texto num sítio, em vez de compartilhá-lo num site.

E junto, postar um enlace, não um link – bastando para tanto acionar a tecla do meu rato. E me acostumar ao facto de que, em português, mouse se diz rato.

Se calhar, se me apetecer, um dia hei-de escrever assim (inclusive com esses hifens, que são os únicos cuja regra não tem excepção).

Estás a perceber por que tem horas – perdão, por que há horas – em que dá vontade de falar português?

Mas bate uma lombeira, um banzo, uma leseira, um quebranto, que a vontade logo passa, e eu volto a falar em brasileiro, que tem outro gingado, outro molejo, outro encanto.

Desabafo

desabafo.png

Os primeiros símbolos foram criados há cerca de 30.000 anos. A escrita, há quase 9.000.

É muito tempo para ainda não termos aperfeiçoado essa geringonça.

Tudo indica que o alfabeto foi inventado por um grupo de trabalho de burocratas, reunido numa caverna onde funcionava uma repartição pública mesolítica, coordenado por um brucutu do signo de Áries (logo, incapaz de aceitar sugestões e reconhecer quando está errado), sem objetivos específicos claros e sem prazo definido para conclusão do serviço.

Só isso explica termos que perder tempo, ainda hoje, com S, SS, X, SC e Ç para representar o mesmo som.

Por que não delegaram essa tarefa àquele taurino que sentava lá no fundo e se encarregou do T, o D, o P? Nem petista comete erro de ortografia com essas letras.

Imagino a polêmica entre a troglodita emo que achava o J muito fofo, e não queria abrir mão dele, e a primata empoderada que não abdicava do G nem a pau. O gestor (certamente isentão e não querendo contrariar ninguém) deu ganho de causa às duas, e até hoje a gente tem que escrever “giló” e “jiló” para ver qual parece menos estranho, e, aí, sim, saber o certo. (Técnica que, diga-se de passagem, não funciona com “beringela” e “berinjela” – a gente olha pra uma, olha pra outra e, na dúvida, muda a receita para abobrinha).

Hispânicos e lusitanos penam com o B e o V – que, para eles, são a mesma vosta. Nós escapamos dessa, mas não de confundir o L com o U (mau sabendo a péssima impressão que o mal uso dessas letras pode causar num texto).

Porém o maior problema da escrita não é estar dissociada da fonética. É ser, graficamente, confusa.

Terá sido por contenção de gastos que o zero tem a mesma forma da letra O? Que o número 1 seja igual ao L minúsculo? Que o 2 e o Z, e o 5 e o S sejam meio que cara de um, focinho do outro? Que o U e o V, dependendo da fonte (ou de ser uma edição portuguesa antiga) deem quase na mesma?

E – finalmente chegando à verdadeira razão desse desabafo – por que é que quem inventa os captchas (aqueles códigos que a gente tem que digitar pra provar que não é robô) não consegue criar unzinho que seja que não tenha um O, um 0, um l, um 1, um q, um g, tudo embolado?

Desafio qualquer um a acertar de primeira os captchas do site do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Eu acabo de desistir, na oitava tentativa.

Por que não nasci com uns neurônios a menos, pra ser reprovado no vestibular e acabar na segunda opção, que era Engenharia? No site do CREA, os captchas eram mais facinhos.

~

(Disclaimers)

1. Este texto contém ironia.

2. Na dúvida sobre que parte é séria, que parte não é, em vez de vociferar nos comentários, favor encaminhar mensagem imboques, que eu mando uma versão colorida – em verde o que é pra ler ao pé da letra, em amarelo a ironia, em laranja a chacota, em vermelho o sarcasmo e em roxo o escárnio.

3. Este texto se vale de estereótipos, clichês e astrologia, que são crimes hediondos e inafiançáveis, sem direito a foro privilegiado, colaboração premiada ou progressão da pena.

4. A locução “primata empoderada” não tem qualquer conotação racista, especista, sexista, homofóbica, islamofóbica, gordofóbica e/ou opressora.

5. Nenhum ariano, lusitano, burocrata, petista ou engenheiro foi ferido durante a digitação deste texto.