Na pressão

panela
Ilustração: Paulo Masserani

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição.   Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

Yes, nós temos banana

banana

Lembra quando havia hiperinflação e a gente fazia compra do mês, pondo no carrinho primeiro o item mais caro, porque se deixasse para pegar no final o preço já era outro?

Compra do mês não era só comprar muita coisa de uma vez – havia ali ciência e arte. Um norráu que perdemos ao fazer comprinha picada.

Comprava-se para o mês apenas o que não fosse perecível. Ou o que, mesmo perecível, desse para congelar. Verduras e certas frutas tinham que ser compradas na feira, no dia a dia.

Eu tinha me esquecido disso. Na “compra de quarentena” (que achei que fosse ser só um mês), comprei, desavisadamente, um cacho enorme de banana – imaginando a cena de novela: passar pela fruteira, displicentemente pegar uma banana, descascá-la como quem despe uma camisola (ou um moletom, aí vai da fantasia de cada um) e ir comer na varanda, com a brisa soprando nos cabelos e a olhar, ao longe, o mar.

Só que banana é uma fruta muito burra. Em vez de amadurecer uma de cada vez, ordeiramente, elas amadurecem todas ao mesmo tempo.

Daí que ontem me vi com a cozinha tomada por um enxame de drosófilas e diante do desafio de ter que escolher entre uma overdose ou um desperdício de banana.

Mas lembram da Kelly Cristina, do texto de outro dia? Pois é, vou acabar acreditando nela. Adivinhem o que me chega via zap, naquele exato instante? Uma mensagem da Calu exibindo, orgulhosa, a gororoba que tinha acabado de fazer. (Sim, as pessoas fazem isso. Cozinham gororoba e mandam foto pros amigos taurinos.)

A gororoba, segundo ela, era doce de banana. (Pelo visto, faltou norráu de compra do mês lá na Urca também).

– Como é que faz? – perguntei, sabendo que ia desistir ao saber como é que fazia.

– Três colheres de açúcar, deixa começar a queimar, joga a banana picada e mexe até cozinhar.

Parecia mais fácil que fazer gelo na forminha. E era.

Descobri que podia ter comido doce de banana a vida inteira sem depender da bondade de estranhos.  E sem ter que tirar o cravo – porque, sim, ao contrário do que sempre me pareceu ser uma verdade absoluta, é possível fazer doce de banana sem cravo: é só não colocar o cravo, que ele não vai sozinho.

Claro que vou refinar a receita. Três colheres de açúcar foram um exagero (ou a Calu não comprou só um cacho, mas todo o carregamento do Ceasa).  E deve ser mais rápido se a banana for amassada, não picada. Um pouco de suco de limão deve cair bem, para dar acidez (a crocância fica para quando me ensinarem a fazer bráune de liquidificador).

E não pode mexer redondo. Doce não é samba, que balança de um lado pro outro. Tem que ser como jazz, que mexe pra frente e pra trás. E pra fazer basta ter talento culinário de menos e bananas demais.

Horóscopo do Pai Dudu

horoscopo

A opressão, o preconceito e a intolerância estão enraizados na nossa cultura, de tal forma que os praticamos “estruturalmente”, ou seja, no dia a dia, nas atitudes mais banais, sem nos dar conta.

No horóscopo, por exemplo.

– Qual o seu signo?

– Sou ariana.

Você tem noção de quanto sofrimento essa resposta causa a uma ameríndia, uma asiática, uma árabe, uma afrodescendente?

Signos não têm o direito de ser etnicamente abusivos. Nascidas, nascidos e nascides entre 21 março a 19 abril devem poder expressar livremente sua ancestralidade e responder que são abecazes, aborígenes, apaches, berberes, bororós, bretões.

Arianos são só os arianos – e mesmo assim era melhor que respondessem: “Sou indo-europeu – mas não é culpa minha”.

Eu, por exemplo, sou Touro. Vegetariano e, vejam só, obrigado a compactuar com a exploração animal implícita na atividade pecuária, por uma contingência zodiacal.

Se ao menos as mulheres taurinas tivessem a opção de dizer que são do signo de Vaca, as moças do signo de Novilha e as crianças do signo de Bezerro, mas o signo é especista, misógino e não respeita os direitos da infância e da juventude.

Por que não mudar para Minhoca, que também é de elemento Terra? Aliás, mais elemento Terra que minhoca, impossível. Imaginemos a voz de Zora Yonara, na Super Rádio Tupi, prognosticando:

– Anelídeo, meu filho, o dia de hoje é propício para ficar enfiado em casa, subindo pelas paredes.

Tudo a ver comigo e com este momento da minha vida.

Aí vem Gêmeos. Pense no gatilho que é essa palavra para quem não pode ter filhos. Quem sempre sonhou ter enjoo, inchaço nas pernas, desejo de comer chantili com taioba às três da madrugada, ficar oito horas em trabalho de parto, ter que fazer períneo (e não poder nem tossir por 15 dias), e com o bico do seio rachado na amamentação… e não teve essas alegrias.

Por que não mudar para Pet? Pet é mais inclusivo – vai de buldogue francês a tartaruga, passando por gato, camaleão e calopsita. Só não tem quem não quer – e tem feirinha de adoção em qualquer praça.

Onde a pessoa estava com a cabeça quando achou que Câncer era um bom nome para signo? Imagine o drama do paciente oncológico com remissão nascido entre 22 junho e 22 julho. Até Corona seria melhor. Se tinha que ter patologia no zodíaco, que fosse Caspa. Otite. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Proponho que troquemos por Virose, muito mais democrática.

Leão. Com uma fauna nativa riquíssima como a nossa, vem alguém e batiza um signo de Leão, espécie exógena. Por que não Jaguatirica, Tamanduá, Capivara, Cutia?

– Sou Cutia com ascendente em Virose, e você.

– Galinha.

Sim, Galinha. Porque Virgem é machista no último. O hímen não define ninguém. Esse signo só perpetua o falocentrismo do patriarcado. Assumir-se Galinha será libertador.

Aí vem Libra, que só pode ser ironia, já que congrega os seres mais desequilibrados do planeta. Eu trocaria por Índice Bovespa, esse, sim, instável, imprevisível e só deve investir quem gosta de emoções fortes.

Ao contrário de Libra, tem hora que o signo antigo acerta em cheio. Escorpião define os que chegaram ao planeta entre 23 outubro e 21 novembro para atazanar a vida alheia. Se fossem do bem, o signo se chamaria Joaninha, Panda ou Porquinho da Índia. Esse nome eu manteria, como alerta. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

Sagitário é representado por um centauro, metade homem, metade cavalo. Como uma das metas do novo horóscopo será o empoderamento e a representatividade, passa a ser Sereia. Mas sem gordofobia: será metade mulher, metade baleia.

Quem já foi traído sabe o quanto dói ouvir e ler qualquer coisa que lembre chifre. E o Capricórnio tem dois. Dos bons. Para redução de danos, troquemos por Unicórnio, e a sofrência cai pela metade.

Aquário é um nome tão cruel e claustrofóbico quanto Jaula ou Gaiola. O que uma cumbuca de vidro onde indefesos seres aquáticos são aprisionados tem a ver com pessoas excêntricas, rebeldes e sem noção? Para manter o conceito, por que não Quitinete?

Finalmente, Peixes. Claro que o encarregado de dar nomes aos signos já estava exausto e deixou por conta do estagiário. Peixes. Nem se deu ao trabalho de dizer de que espécie, como se não houvesse diferença entre bagre e salmão, tubarão e tainha. Se é pra generalizar, que seja logo Eucariontes.

Pronto, agora com o horóscopo devidamente desideologizado e desconstruído, é só relaxar e mentalizar a voz de Zora Yonara dizendo:

“Bom dia pra você, amiga galinácea. A semana lhe reserva uma grata surpresa com um amigo virtual de unicórnio e decepções com Índice Bovespa. Evite contato com Virose e mantenha-se afastada de qualquer Eucarionte. Sua melhor companhia neste momento é Quitinete, mas não descarte ter um Pet por perto. Sua cor é infravermelho, sua pedra é renal e seu número da sorte é pi radiano.”

Alguém pode achar estranho esse horóscopo sem bullying, mas vejam como tudo se encaixa: eu, ex-Touro, agora Minhoca, tenho como uma das minhas combinações elementares… Galinha! Não é perfeito?

Colocando os pingos nos jotas

iii

Colocar os pingos nos is é deixar as coisas bem claras. Isso todo mundo sabe.

O que eu desconhecia é que até o século 16 o i não tinha pingo. E quando na palavra havia dois is em seguida, o is sem pingo ficavam parecendo um u. Então, para saber quando eram dois is e quando era um u, colocavam-se pingos nos is.

Claro que aí deixavam de saber se eram dois is ou um ü (um com trema), mas não se pode resolver todos os problemas de uma vez só.

Meu pai achava pouco colocar pingos nos is, e os colocava também nos y. Não era um trema, mas dois pingos, um em cada galhada do y. Para quê? Jamais saberemos.

A vida inteira ele assinou o Sidney com um pingo no i e dois no y. E mais três pontinhos no final, por ser maçom. Seis pontos ao todo, um por letra. Eu, Sidney que sou (pelo menos no RG), também usei durante algum tempo, nos primeiros anos de escola. Até achar que aquilo era meio anacrônico, assim como os contos de réis que insistíamos em falar em casa, quando há muito a moeda já era o cruzeiro.

Lá em casa pingavam-se não só os is (literal e figuradamente) e o ipsilones, mas também o jota.

O jota tem essa peculiaridade: não tem pingo quando escrito à mão, mas o pingo jamais deixa de estar, sem qualquer justificativa, quando é digitado. E, a exemplo do i, somente na minúscula.

Se colocar os pingos nos is é não deixar margem de dúvida, a expressão “colocar os pingos nos jotas” também devia existir. E significar algo como ter aquele jeitão jurássico de pessoa entojada, enjoada, nojenta.

Quem coloca pingo em jota é capaz de tudo.

De escrever óptico, para distinguir de ótico (que tem a ver com o ouvido, não com a visão).

De corrigir quando alguém diz pilastra em vez de coluna. Como todo mundo que estudou Arquitetura por cinco anos está cansado de saber, a coluna é destacada da parede, e a pilastra é grudada.

Quem pinga jota não perdoa alguém dizer que teve sua carteira roubada, e, em vez de se solidarizar, aproveita a desgraça alheia para explicar a diferença entre furto e roubo.

Não perde a chance de dizer que que sorvete é uma coisa, sorbet é outra. Que corona é o vírus, e covid, a doença.

Quem pinga jota sabe quando usar infarto e quanto usar enfarte. Dirá que “fulano sentiu-se enfarte (cheio, farto) depois de traçar uma feijoada e teve um infarto (lesão nas artérias) do miocárdio”.

“Colocar os pingos nos jotas” implicaria corrigir quem diz “implica em” (isso implica aquilo, não naquilo). Puxar a orelha de quem nunca sabe se assistiu o filme ou ao filme e, na dúvida, prefere dizer que viu. Quem se enrola nos “vêm” e “veem”, dos verbos vir e ver. Nos porque, por que, porquê e por quê (por que será que existe essa frescura? Porque talvez, se procurarmos o porquê, descobriremos que não há por quê).

Os que pingam jota devem ser do tipo que ainda sofre com o óbito do trema. Talvez por terem amado, em algum lugar do passado, uma Thaïs que lia Madame de Staël e usava Anaïs Anaïs.

Além dos que põem os pingos nos jotas e nos ipsilones, há também os que cortam o Z. Mas aí já é caso de polícia.

Crescei e promblematizai

simpsons

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Crescei e problematizai


 

Tudo começou nos anos 70, quando fomos alertados para a ideologia imperialista que nos ia fazendo a cabeça enquanto líamos, inocentemente, os gibis do Walt Disney.

Na década seguinte veio a psicanálise dos contos de fadas, e a revelação de que Chapeuzinho Vermelho se deixara seduzir pelo Lobo Mau por causa do desejo inconsciente pelo pai.

Mesmo tão escolados, levamos 30 anos para descobrir que os Simpsons não são uma linda e amarela família disfuncional como outra qualquer, formada por um macho ômega, estúpido em grau máximo, e uma fêmea centrada, pais de um menino irresponsável, uma menina disruptiva e uma bebezinha que, quando começar a falar, só trará verdades.

Marge usa um colar vermelho (mesma cor erótica do chapéu da Chapeuzinho e da gota de sangue da Bela Adormecida), e ele é sua coleira simbólica. Completando o kit machismo, veste sempre um insinuante tomara que caia — perdão, um “vestido sem alça” — que é o assédio sexual em forma de roupa.

Aprendemos a ser gordofóbicos lendo “Bolota”. A discriminar quem tenha transtorno compulsivo ao folhear “Brotoeja”. A desdenhar das idosas com as trapalhadas da Madame Min. A nos desinteressar sexualmente pelas mulheres de cabelos brancos por causa da Bruxa do 71.

As novelas não têm feito outra coisa senão reafirmar a maléfica natureza feminina — repare que os vilões podem até ser maus, mas as vilãs são péssimas. Aí estão Perpétua, Carminha, Nazaré Tedesco, Odete Roitman e Paola Bracho que não me deixam mentir.

Já problematizamos o criado mudo. O próximo há de ser o armário. Afinal, armário é onde se guarda arma, não roupa ou panela. Não demora, uma fábrica progressista de móveis modulados lançará campanha publicitária abrindo nossos olhos para o fato de o armário da cozinha e o armário embutido não serem mais que propaganda armamentista disfarçada de compensado e MDF.

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Enquanto o mundo cancela partidas de futebol e festivais de rock, fecha escolas e fronteiras para conter um vírus, aqui a gente continua discutindo se uma psicopata pode receber um abraço, se macho branco hétero pode dirigir série sobre mulher preta lésbica e, como diz o meme, não mais procurando cabelo em ovo, mas já fazendo progressiva e balaiagem nele.

Obrigratidão

rotulos

– Obrigratidão.

– Como é que é?  Você disse…

– Obrigratidão. Obrigado pra quem é de obrigado, gratidão pra quem é de gratidão.

– E isso funciona?

– Não. Os que são de gratidão acham que estou sendo sarcástico e os de obrigado acham ainda mais ridículo que gratidão.

– E por que você usa?

– Para irritar quem acha que o outro tem que ser grato do jeito dele. Eu sou grato do jeito que eu quiser. Dependendo do caso, posso até usar obrigratiluz.

– Deve ser difícil…

– Não tanto quanto ser transcis.

– Quem?

– Transcis. Me identifico com meu gênero biológico e com o gênero biológico oposto.

– Genderfluid, então.

– Não. Eu não fico oscilando. Não tenho que deixar de ser uma coisa para ser outra.  Não entro nessa dicotomia reducionista de ter que escolher entre ser cis ou trans.

– E a reação é…

–  Sofro bullying dos cis por ser trans e sou visto com desconfiança pelos trans por ser cis. Sem falar nos genderfluid, que me acham um farsante.

– Tenso.

– Tiro de letra, porque sou mulato. Os brancos não me acham branco, e os pretos que me acham preto não me acham preto o suficiente. Vivo num limbo identitário, porque meu mulatismo militante é visto como pelos brancos como oportunismo afrodescendentista só para pegar cota, e pelos pretos como embranquecedor e negacionista da negritude.

– Uau! Olha, foi muito bom conversar com você.  É interessante ver alguém que busca se manter longe dos rótulos e…

– Mas eu não fujo dos rótulos. Eu acho os rótulos uma coisa muito pequena. Eu já estou na fase dos letreiros, dos autidórs. Eu sou fofoda.

– Fofoda?

– Fofo e foda.

– Nossa, é raro encontrar pessoas assim, tão dialéticas. Não é todo mundo que consegue elaborar os paradoxos.

– Se quiser, podemos tomar um chopperol, que é um chopp com aperol…

– Não, agora não dá. Outro dia, quem sabe? É que sou atriz, feminista e tenho que ir posar pelada contra a objetificação da mulher. Acho que temos muito em comum…

Era uma vez

Sidney

Sempre fui uma negação para guardar nomes.

Para compensar, sou péssimo fisionomista.

Quando dava aulas, era comum ser abordado.

– Tudo bom, professor? E a minha nota?

O máximo que eu conseguia saber era que o jovem ou a jovem (ainda não existiam xs jovxns naquela época) era de alguma das turmas para as quais eu lecionava. E eram muitas.

Na hora da chamada, tentava fazer o cara-crachá para ver se, de tanto repetir, associava os nomes às pessoas.  Em vão.

Conseguia gravar, no máximo, os melhores e os piores de cada sala. Os da fila da frente e os do fundão. O que significa que 90% permaneciam um mistério para mim durante todo o ano letivo.

Não era pouco caso. Era déficit meu mesmo.

Eu também trabalhava no Banco do Brasil.  E volta e meia me aparecia alguém perguntando:

– E o meu negócio, como é que está?

Eu não fazia ideia de quem fosse a pessoa, que dirá como estava o negócio dela. Que poderia ser uma renovação de cheque especial, uma aplicaçãozinha do saldo disponível em conta ou um empréstimo para comprar 200 vacas girolandas.

– Me veja um documento, por favor, só para eu confirmar se seus dados saíram certinhos.

– Estou sem a identidade aqui…

– Serve conta de luz, qualquer coisa que tenha seu nome.

– Estou sem nada.

– Então assina aqui só para eu aproveitar e conferir a assinatura.

E lá ia eu, torcendo para que a assinatura fosse legível, ou teria que consultar milhares de cartões de autógrafo – ou perguntar, discretamente, a alguém de confiança, “quem é aquele ali na minha mesa?”.

Na rua, cidade do interior, era batata:

– Transfere 50 mil da minha poupança pra conta, que vai cair um cheque amanhã. Depois eu passo lá e assino.

Eram tempos pré aplicativos via celular. O celular, inclusive, ainda era ficção científica.  Eu tinha que chegar ao banco e avisar que, se aparecesse um cheque em torno de 50 mil sem saldo na conta, era para falar comigo antes de devolver. Só assim eu saberia quem era o cliente. Ou ex-cliente, por minha culpa, minha máxima culpa.

Para facilitar as coisas, tenho nome duplo. Minha mãe queria Eduardo. Meu pai concordou até a véspera, mas, sem combinar nada com ela, incluiu Sidney na certidão. Ela, magoada, nunca me chamou de Sidney. Ele, talvez por arrependimento, talvez de pirraça, também não. Só fiquei sabendo que, além de Eduardo, era Sidney quando entrei na escola, e tinha que dizer que eu, Eduardo, estava presente quando a professora chamasse o tal de Sidney.

Então em casa eu era Eduardo, na escola era Sidney. Nas apresentações formais, Sidney; nas relações mais íntimas, Eduardo. Eduardo na Psicologia; na Arquitetura, Sidney.

Num sem número de vezes, me peguei ao final de uma carta ou com o dedo no botão de um interfone sem saber quem estava lá, o Sidney ou o Eduardo. Tinha que refazer mentalmente toda a história, lembrar de onde nos conhecíamos, pensar na pessoa falando meu nome para ver qual soava mais familiar na sua boca – e só aí assinava ou dizia quem era.

Mas, como nem tudo é desgraça na vida de um cristão, eu era tímido. E, como Deus é justo, e dá o frio conforme o cobertor, também gago. O que me tornava ansioso nas relações interpessoais – mas apenas em dois tipos de situação: quando tinha que falar com alguém presencialmente (porque a timidez me dava um branco) ou quando tinha que falar com alguém por telefone (porque a gagueira me dava um nó).

Venci ambas as limitações falando o mais depressa possível, tanto para não gaguejar quanto para acabar logo com aquilo. E fugindo do telefone como um carioca, no verão, foge da conta de luz.

Por isso comecei a escrever.

Escrevendo, não gaguejava. Podia usar à vontade palavras começadas com B. E as pessoas tinham o nome que eu quisesse. E eu era sempre Eduardo, nunca Sidney.

Nunca vi a escrita como uma escolha ou um dom, mas como uma espécie de salvação.