Malungo

Etimologia

Pode parecer maluquice – palavra de origem controversa: viria do latim “malus” = mal, ou dos malucos, habitantes das ilhas Molucas , que vendiam cravo e noz moscada a preços absurdos, e lutaram ferozmente contra os portugueses -, mas tenho um dicionário na mesa de cabeceira, e o leio como se lê romance.

Ali não faltam personagens extraordinários, enredos mirabolantes, viradas de roteiro, palavras cujo passado contém segredos que talvez jamais sejam revelados, outras que morreram, que ressuscitaram, que se reinventaram, que usam máscaras, mentiras, maquiagem pesada.

O dicionário é meu I-Ching. Abro-o ao acaso (hoje foi na letra M) e tenho revelações.

Maçaneta tem esse nome devido à semelhança com a maçã. No século 16, quando a palavra nasceu, possivelmente ainda não havia maçanetas de alavanca (alavanca é das que têm origem misteriosa).

Macabro vem dos macabeus, heróis bíblicos cujo culto estava relacionado com a morte, e que ganharam esse nome por causa de Judas Macabeu, – literalmente, Judas Martelo, aquele que golpeia o inimigo, aquele que persegue e procura exterminar um mal.

Em latim, martelo é malleus – de onde provém “maleável”, o que se dobra ao martelo.  Seria a morte maleável?

O calçamento de pedra britada, aglomerada com saibro e areia grossa e comprimida a rolo depois de molhada se chama macadame por causa do inventor dessa técnica, o engenheiro escocês John Mc Adam.  Não tem nada a ver com a noz macadâmia, que deve seu nome a outro John Mc Adam, só que naturalista e australiano.

Machete era uma pequena viola; depois – ah, as artimanhas do destino! – virou um sabre de dois gumes.

Maçom vem de “makón”, o ato de preparar a argila para a construção. Maçonaria era a arte dos pedreiros. Não à toa chamam Deus de Supremo Arquiteto…

Maconha vem do quimbundo, e quer dizer erva santa.
Macaxeira era um dos nomes do diabo entre os índios do Brasil.

Se fumar maconha comendo macaxeira, estará acendendo uma vela pra Deus e outra pro diabo – só que o diabo não é o que parece.

Madeixa, hoje apenas uma porção de cabelos, quer dizer “seda crua”.  Madeixas sedosas serão um pleonasmo.

Mago, que hoje significa mágico, feiticeiro, encantador, vem do grego “mágos” (sábio, sacerdote).  Os reis magos não seriam nem reis nem feiticeiros, mas homens sábios (e talvez nem fossem três, mas doze). Um dos presentes que levaram era a mirra, uma planta utilizada para secar feridas e embalsamar cadáveres.  Daí o verbo mirrar: ressequir, reduzir.

Malária é, literalmente, ar insalubre (mala + aria). Por isso não se pega malária em Buenos Aires.

Mancebo é o mesmo que moço, amante. Daí vêm tanto emancipar (libertar) quanto amancebar (prender-se a alguém, mas sem os vínculos do casamento).  Mancebos emancipados e amancebados vivem uma espécie de liberdade bipolar.

Manco é igual a coxo (aquele que tem uma perna mais curta). Mas vem do latim “mancus”, derivado de “manus” (mãos). É manco, etimologicamente, aquele a quem falta… mão.

De “manus” também vieram manha e manhoso, no sentido de habilidade manual. Para, por exemplo, fazer manobras de várias maneiras, manusear manuscritos e manipular manivelas.

Manicômio é onde se cura a mania (“manía” = loucura, demência).
Marechal era quem cuidava dos cavalos.

Margarida quer dizer pérola, e foi daí que veio margarina (combinação de ácido margárico e glicerina).
Marmita vem do francês “marmite”, que significa hipócrita (“por causa do conteúdo escondido do recipiente”).

Por fim, bate o sono – hora de devolver o livro das palavras à mesinha de cabeceira – e vem a melancolia, de “melanós” (a mesma origem de melanina, melanoma). Melancolia não é mais que a bílis, o fel negro, o veneno sombrio.

Abri o I-Ching com maçaneta. Fechei-o com melancolia.  E que ninguém venha me dizer que o dicionário etimológico não é um romance cheio de mistérios, intrigas, encontros, desencontros e sabedoria.

Sob o signo de câncer

Cancer

O primeiro câncer a gente nunca esquece.

Eu tinha 27 anos e a solução era relativamente simples: extirpar o testículo afetado e substituí-lo por uma prótese de silicone.  Ninguém precisava saber, ninguém notaria a diferença.

A fertilidade não ficaria comprometida, nem a produção de testosterona. Esse é o bônus dos órgãos duplos: um segura a onda quando o outro pisa na bola.

Não me opus à remoção, mas resolvi que não iria me submeter a qualquer tratamento agressivo posterior, como quimioterapia.

Avisei à família, mudei os beneficiários do seguro de vida, rasguei os textos que não prestavam (vai que a família resolve fazer uma edição póstuma e fico pagando mico perante a posteridade). E, apenas por desencargo de consciência, consultei outro profissional.

Este achou melhor não cortar o mal pela raiz sem antes fazer uma biópsia – e no final era apenas um cisto, que foi devidamente removido sem causar maiores danos aos “testemunhos da virilidade”.

O lado bom foi ter descoberto que era infértil – e todas as suspeitas de gravidez que ocorreram depois desse evento foram recebidas com a fleuma de um monge tibetano viciado em maracujina.

O segundo câncer a gente acaba esquecendo.

Demora mais um pouco, porque aconteceu há um mês.

O diagnóstico já não vem cheio de meias palavras: é na lata. Porque, de tanto uso, a palavra “câncer” foi esvaziada.

O dermatologista olhou minha cabeça e, se teve alguma dúvida, esta durou segundos: “É câncer. Tem que tirar o quanto antes.”

Um câncer no testículo (assim como o de mama) pode ser detectado na hora do banho, ou– não recomendo – na hora do sexo.  Um de pele, no topo da cabeça, só é descoberto pelo barbeiro ou por alguém que esteja catando piolho (delícia a que não faço jus desde os 10 anos de idade).

Devia estar lá há bastante tempo, incógnito, com suas celulazinhas surtadas se multiplicando fora do alcance das vistas, inacessível ao espelho.

Como da primeira vez, consultei um segundo profissional – agora um oncologista. O diagnóstico também levou segundos – o que me fez crer que, ou a coisa tava braba ou era um câncer com legenda.

Um terceiro médico atestou – e mandou remover aquilo de imediato.

Em 10 dias, lá estava eu nu (por que se tem que ficar nu para tirar uma mancha no cocuruto?), de camisolão, no centro cirúrgico. Não vi nada, não senti nada. Olhei para a anestesista, que disse que ia começar a me sedar e a frase seguinte já era a do cirurgião dizendo que o procedimento tinha sido um sucesso.

Dois cm2 de pele retirados, parte do couro cabeludo descolado do crânio para poder ser espichado e tampar o buraco sem necessidade de enxerto.  Passada a anestesia, me senti uma Elza Soares, todo repuxado (eu ria, e o crânio sorria comigo; piscava, e o crânio parecia piscar junto).

Ontem, às 10 da noite, o resultado: carcinoma basocelular. Um câncer de segunda linha, que talvez merecesse título menos pomposo.

Desta vez não alterei os beneficiários do seguro, não rasguei escrito nenhum (até porque não dá pra rasgar arquivos do Word), mas reiterei o que está no testamento vital: nada de terapias agressivas, entubamentos, reanimação, transplante, UTI. A vida está de boa; a sobrevida eu dispenso.

A única sequela é parte da cabeça raspada e o restante com máquina 2.  É bom mudar o visual de vez em quando. E descobrir que, se for preciso catar piolhos (metafóricos), posso contar com alguns bons amigos.

 

Isentão

muro

– Aqui está a nossa carta de vinhos. Temos um excelente Château Petrus 2004, de R$ 16.120,00, e este Vinho Canção Suave, por R$ 12,90.

– Não têm nenhum Malbec argentino, um Concha y Toro, um Bolla Valpolicella, um Miolo Seleção?

Garçom, entre os dentes:

– Isentão….

Isentão é isso. O sujeito que, entre jogar dominó na praça e escalar o Himalaia de costas sem oxigênio e num pé só, prefere correr no calçadão. Ou dar umas braçadas. Ou fazer meia hora de esteira e três séries de 10 no supino.

Poderia ter tido outros nomes.

Sensatão.
Racionalzão.
Equilibradão.
Responsavelzão.

Mas o que pegou foi isentão, fazer o quê.

Isento quer dizer liberto, livre, desembaraçado, imune. Limpo, imparcial, justo, desapaixonado. Neutro, sensato.

– E aí, sensatão, quando é que tu vai sair de cima do muro?

(Não ia dar certo. Não como xingamento.)

– Quer dizer que nem James Joyce nem Paulo Coelho; você prefere Cortázar? Seu independentão de m… !

(Não, também não ia funcionar.)

– Sou contra as duas coisas: explodir mesquita e metralhar sinagoga. Acho que…
– Acha nada. De imparcialzão como você, o inferno tá cheio!

– E aí, vão querer a folha de rúcula com chia ou porção tripla de linguicinha com torresmo?
– Vê pra gente um salmão e um espaguete ao pesto, por favor.
– Olhaqui, meu ponderadão, o prato do dia é rúcula com chia ou linguicinha com torresmo. É o que tá pronto e sai na hora. Issaí que tu pediu vai demorá. Pode inclusive nem saí.

Há um círculo do inferno reservado aos moderadões.

No juízo final, os comedidões vão pagar por ter se omitido nas questões vitais, como biscoito ou bolacha (eles preferem bráune ou rosquinha de nata), feijão por cima ou por baixo do arroz (melhor mexidinho, com couve e ovo frito), Coca ou Pepsi (Mineirinho!), Heath Ledger ou Joaquin Phoenix (Cesar Romero), Feicebuque ou Instagram (vida real).

A Suíça é aquela droga de país porque é uma isentona. Bom mesmo é a Síria. Lá, sim, as pessoas têm posição definida.

O desapaixonadão entende que o que separa a anorexia da obesidade mórbida não seja um muro onde ficam encarapitados os irresolutões, vacilantões, ambiguões e titubeantões de índice de massa corporal entre 19 e 25, mais ou menos – mas que há, entre esses extremos, um vasto campo chamado vida saudável.

O isentão é um botafoguense que não tem por que se meter na porradaria de uma final de Fla x Flu.

Pode, no máximo, ligar pro 190 e acionar o SAMU.

Terra plana

terra

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Terraplanistas do Brasil, uni-vos!


 

“Um espectro ronda o Brasil — o espectro do terraplanismo. Não aquele baseado na crença de que vivamos numa espécie de pires cósmico, tendo por céu uma cumbuca emborcada sobre nós (ou um bowl , como se diz no português dos programas de culinária). O terraplanismo é mais universal. Engloba outras platitudes.

Não houve facada. Foi golpe. A Lava-Jato prejudicou o país. O país estava à beira do comunismo. Não existe aquecimento global. Vivemos numa ditadura. As ONGs põem fogo na porra da árvore. Palavras matam.

Pode-se acusar o terraplanismo de tudo, menos de não ser democrático. Está à esquerda, à direita, em cima, embaixo, na grande mídia, na internet. Em comum, o fato de ser avesso a argumentações, impermeável a evidências, imune a provas concretas. É menos uma concepção de mundo que uma birra com a realidade. E, para compensar que enxerga só de um olho, fala pelos cotovelos.

Há o terraplanismo dos formatadores de opinião (ou influencers, como se diz no português do mundo virtual), youtubers cuja idade mental é a raiz quadrada da idade cronológica. O terraplanista genérico e o de marca. O genérico quer #lulalivre e pronto; o de marca acredita que o ex-presidente seja mesmo inocente. O genérico se consola dizendo que só havia um antídoto para o petismo; o de marca se envenena com esse antídoto em êxtase cívico. Os mimizentos, que se ofendem com tudo, e os memezentos, que transformam qualquer coisa em meme.

Terraplanistas de todos os inúmeros gêneros e graus, uni-vos. Nada tendes a perder a não ser vosso ideal de transformar o Brasil numa enorme Serra Pelada ou num imenso Bacurau.”

Porque hoje é sexta, n’O Globo.

Palíndromo

arara

Palíndromo é a aquilo que tem o mesmo sentido quando lido da direita para a esquerda ou vice-versa. O difícil é um palíndromo que faça sentido, seja lá em que direção for.

“Ovo”, por exemplo, é um palíndromo. Bobo, mas é.

A maior palavra palíndromo em português é “omissíssimo” (superlativo de omisso).

Em finlandês há uma ainda mais comprida: “saippuakivikauppias”, que quer dizer “vendedor de soda cáustica”. Não tente pronunciar isso em casa.

A coisa complica quando se quer formar uma frase.

A lupa pula.
Oi, rato otário!
A miss é péssima.
Oto come mocotó.
O lobo ama o bolo.
A pateta ama até tapa.

Quanto maior a frase, pior fica.

Soluço-me sem óculos.
Lá vou eu em meu eu oval.
Acuda cadela da Leda caduca.
A dama admirou o rim da amada.
Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces.
O duplo pó do trote torpe de potro meu que morto pede protetor todo polpudo.

E para que servem os palíndromos? Absolutamente nada. Mega bobagem. (“Mega bobagem” é palíndromo)

Ainda assim, não falta quem os estude ou se dedique a eles.

São classificados em 3 tipos:

Os explícitos, que trazem uma mensagem inteligível: “A cara rajada da jararaca“, “E até o Papa poeta é”, “Anotaram a data da maratona”, “Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos”.

Os interpretáveis, que possuem coerência, mas exigem algum esforço intelectual: “Oh nossas luvas avulsas, sonho.”, “A Rita, sobre vovô, verbos atira.”

E os insensatos: “Olé! Maracujá, caju, caramelo.”

Há palindromistas famosos: Chico Buarque (““Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta”), Millôr Fernandes (“A grama é amarga”), Laerte (“Rir, o breve verbo rir”), Gregório Duvivier (“Amar dá drama”).

Ótimo, só eu, que os omito. (Olhaí outro palíndromo – e real, porque minhas tentativas de palindromar nunca deram em nada). Mais talento teve o Ziro Roriz, palindromista curitibano de pseudônimo palindrômico, que escreveu:

“A sua pauta é a sua causa e o bobo é ele. Levíssimo é o vivo namoro da Regine, roda na cabana bacana da casa da tropa nada romana. Lê o novo vodu do vovô (no caso dono do casaco do anão bobo). E ria Nair a torta. Maíra gaga era. Se caga Cesária má. Mara viu; Ema ri; Vovó vê. A mamãe, o tio réu (que Clara leva). O Adão, Ana, e Leo, viajaram ao além a pé; e nós, de navio. Dario com Leno e Leonela tirana, esmagam-se. Mata-me, se a Leon a Mãe se opõe. Ane lê. Acir, assim Ana já via (com a moça Lea) Iraci falar: a Plácida Razera do azar é razão da reza. Por prazer a rica alemoa baba na mão. Vão, mas é do anão o linotipo. Dezoito moços no sol, Eno viu corado. Revele doida! Vovó vê Vera torta a trote. Viva ! Diva na ida vê ave além. Ari é da maloca. Irá sorrir Rosa e Ari é sacana. E assim Ana, com a moça, lê. A Iraci falará para lá: ficaria ela com a moça na missa ? É Ana caseira e a sorrir Rosa ri. A cola madeira mela. Eva é vadia na vida, vive torta a trotar e vê vovô vadio de leve rodar o cu. Ivonel o sonso; como tio Zé do pito. Nilo, o anão de Samoa, voa mana. Babão mela Acir a rezar pró-paz. Era do azar é razão da reza radical. Para lá ficaria ela, com a moça Iva, já na missa. Rica Elena é, opõe-se a Manoela e se matam. Esmagam-se Ana Rita, Leno e Leonel. Moço irado, Ivan Edson é, e Pâmela o amará já. Ivo (ele anão) Adão Avelar, Alceu quer. O Ito e a mamãe, vovó viram e uivaram. A Maíra se caga. Cesar e a gaga riam. A trotar ia Nair. É o bobo anão do casaco (dono do saco novo), vodu do vovô Noel ? A namorada na porta da sacada na bacana cabana do Reni gerado romano vivo e omissível. Ele é o bobo e a sua causa é a tua pausa.”

Leia de trás pra frente, se puder – e depois me diga se não parece tuíte do Carlucho.

Há dois romances palindrômicos em inglês: “Satire: Veritas”, de David Stephens com 58.795 letras, e “Dr Awkward & Olson in Oslo”, de Lawrence Levine, com 31,954 palavras. Ambos, suponho, intraduzíveis – e os espóileres são inevitáveis.

Por que esse assunto logo hoje? Porque ontem, 9/10/2019, foi um dia capicua (outro nome do palíndromo).

Pena que os gregos não tenham tido a ideia de batizar o palíndromo (literalmente, “fazer o caminho de volta”) com um nome que também se pudesse ler de trás pra frente. Ironicamente, o horror a palíndromos se chama aibofobia – e quem sofre disso sofre em dobro, porque essa palavra é um palíndromo.

Tentei criar palíndromos exclusivos para este texto, mas não saí do “arara ama arara” – que, convenhamos, não enriquece em nada a minha biografia. O jeito é apelar para os universitários:

Ajudem Edu já!

 

Fap fap fap

NoFap

Acabou setembro e, com ele, o NoFap September.

Mas se você perdeu esta oportunidade, mãos à obra que ainda dá tempo de se engajar no NoFap October, November, December…

Se não faz ideia do que seja esse tal de NoFap, vou dar uma mãozinha.

NoFap é um movimento antimasturbatório.

Quer dizer, um não-movimento, porque o que não se pode é justamente movimentar.

Quem foi adolescente nos anos 60, 70 sabe que masturbação fazia nascer pelos nas mãos, dava espinhas no rosto, enfraquecia o espírito e só não causava tuberculose porque esse sintoma já tinha saído de moda nos anos 40 ou 50.

Nos anos 2010, o vício solitário provoca baixa de testosterona, disfunção erétil, perda de tempo e obscurecimento mental. Ou seja, um apigreide e tanto.

Não entendo como ainda não surgiu um estudo científico comprovando que masturbar-se é a principal causa de uso de tênis colorido, camiseta, boné virado para trás e aparelho nos dentes.  É questão de tempo.

O NoFap pode ser praticado em 3 modalidades: a básica (abstenção de pornografia), a intermediária (abstenção de pornografia e de masturbação) e a avançada (avançada? É a mais retrógrada de todas: sem pornografia, sem masturbação nem orgasmo).

Os depoimentos de quem virou o jogo do 5 contra 1 são tão críveis quanto os de quem conseguiu perder 30 kg, aumentou o pênis em 9 cm e aprendeu a regra do hífen – tudo em uma semana, e só tomando fitoterápico:

“Notei várias mudanças: a minha voz fica mais profunda eu fico mais carismático; mais magnético, os homens e as mulheres gostam de se comunicar comigo, minha pele fica melhor e, em geral eu tenho mais energia e as minhas emoções e pensamentos ficam mais facilmente sob controle.”

Nada muito diferente do que preconizava o dr. Georges Surbled, autor de um dos meus livros preferidos, o “Conselhos aos Rapazes” (tenho a edição portuguesa, de 1954).

Ali ele diz que “Os órgãos sexuais do homem (…) denominam-se com toda a propriedade órgãos vergonhosos. Acusam eles a concupiscência, que foi o triste fruto do pecado original”. “Qual a razão por que se consideram mais importantes mais nobres que os órgãos intestinais e urinários, aos quais estão intimamente ligados? Menos preciosos que estes, apenas têm um fim: a geração; e não devem visar a esse objetivo nem realizá-lo senão no matrimónio. Fora disso, para todo o homem que se preza, eles não se destinam a coisa nenhuma.” “O celibato (…) não só não abrevia a existência, mas, também, prolonga dum modo notável a vida dos eunucos voluntários.”

Antecipando o nofapismo, o pudico dr. Surbled era duro em suas opiniões; “O repouso absoluto dos órgãos genitais impõe-se. Infringiria gravemente o dever e expor-se-ia aos piores perigos, quem distraidamente levasse lá uma mão, por divertimento ou ociosidade, sobretudo exercendo fricções repetidas sem um fim justificável. (…) É um crime contra a natureza. E esse crime é proibido pela lei religiosa e pela medicina, que nele vê a sinistra origem das doenças mais graves, e até às vezes mesmo um perigo mortal.”

Como se livrar disso? Evitando os cafés e botequins – onde há más companhias, vinho, mulheres e tabaco. Evitando colchões moles e cobertores (ficar na cama mais que o estritamente necessário é “muito prejudicial à saúde e indigno dum homem”). Evitar banhos quentes e perfumes (“Deixem-se de ser maricas e não copiem das meninas este defeito que as desfeia e prejudica”). Desviar os olhos “das gravuras obscenas, dos postais ilustrados, dos quadros ou das estátuas que excitam os sentidos e perturbam o coração”.

Dr. Surbled deve estar gozando no túmulo a satisfação de ver suas ideias recuperarem a potência neste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2019. E sem precisar ameaçar ninguém com o fogo do inferno.

A cruzada contra o “vício predilecto” agora tem saite e atende pelo nome de NoFap. Que nem é sigla (No Friction and Pleasure? No Flogging a Prick? No Fondling a Popsicle? No Fooling Around, People?), como eu pensava – mas uma onomatopéia para a diversão mais barata jamais inventada: fap fap fap.

Mas quem se masturba fazendo fap fap fap realmente deve estar fazendo alguma coisa errada (e fazendo errado). Devia parar e aprender como se faz direito.

 

Reescrevendo Lobato & cia

 

sitio

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Reescrevendo Lobato & cia


 

Tendo caído em domínio público, o livro “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, será reeditado.

Sem Pedrinho.

O garoto de estilingue no bolso foi limado com o argumento de que seria um peso morto na trama.

O Sítio do Pica-Pau amarelo, que já era um matriarcado, assumiu-se, nesta reedição do primeiro clássico da nossa literatura infantil, como Clube da Luluzinha.

Ali agora reinam Narizinho, Emília, Dona Benta e Tia Nastácia. O resto é figuração.

Haver um menino e uma menina num livro infantil permite um diálogo entre os universos masculino e feminino. Um contraponto, assim como há entre a despachada (e mandona) Emília e o conservador (e obediente) Visconde de Sabugosa.

Monteiro Lobato era um visionário – mas não completamente livre da mentalidade da sua época. O menino brinca de caçar passarinho e tem um boneco de espiga de milho; a menina vive num mundo de fantasia, e brinca com uma boneca de pano.

No Sítio não há lugar para beijo gay (só pós alucinógenos e casamento entre espécies…), mas vozes femininas são privilegiadas: Narizinho é muito mais criativa que Pedrinho; Emília, mais divertida que o Visconde; Tio Barnabé nunca foi páreo para Tia Nastácia; de Dona Benta, então, nem se fala.

Muitos meninos talvez não se interessem por ler o novo “Narizinho”, o que será uma pena.

Mas há outro argumento de peso para editar o texto de Monteiro Lobato: as expressões racistas.

“Beiço” quer dizer apenas “lábio”, mas tem conotação pejorativa. Talvez Emília faça beicinho ao ser contrariada ou D. Benta lamba os beiços após uma comilança, mas só Tia Nastácia, por ser preta, é referida como beiçuda.

Daí “A boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira” ter sido reescrito como “Tia Nastácia deu uma risada gostosa.”

O beiço não fez falta.
Antes não incomodava.
Hoje incomoda.

Obras literárias (ainda mais as que caem em domínio público) podem ser livremente adaptadas. Roteiristas e diretores fazem isso o tempo todo ao levá-las para o cinema, o teatro, a televisão.

O texto de hoje, n’O Globo, é um pequeno delírio sobre que outras mudanças poderiam ser feitas na obra de Monteiro Lobato – e de outros autores de livros infantis.

Um exercício de futurologia, só isso. Lembrando que o futuro não é lá longe: o momento em que você lê este parágrafo já é o futuro de quanto leu o parágrafo que abre o texto.

“A vida vem em ondas, como o mar,”. A onda agora é esta. Qual será a próxima, neste “indo e vindo infinito”?