Duda Mind Control

Meus (meus? ok, meus) cachorros foram “adotados”, tirados da “situação de rua”.

Duda, mais morta que viva. Chico, um bebê que cabia na palma da mão, desnutrido e tomado por carrapatos. Tião, magrelo e com o pelo duro, largado num monte de brita, numa obra.

Hoje dormem em cama (comeram as caminhas que comprei para eles), se esparramam no sofá (onde, às vezes, sobra algum espaço pra mim), tomam banho de chuveiro (com um xampu mais caro que o meu). Mas continuam “de rua”. Rueiros que só.

Têm um relógio biológico que não conhece horário de verão, data de entrega de projeto, elevador em manutenção ou vendaval. Deu a hora de ir pra rua, cessa tudo que a antiga musa canta que outro valor mais alto (e com unhas afiadas) se alevanta.

É uma espécie de volta às origens. Aos postes. Aos cheiros de xixi de centenas de outros cachorros. Ao paraíso perdido.

Duda é a fêmea alfa. É ela quem puxa a matilha, quem escolhe o roteiro. Tem dia em que encasqueta de ir para a esquerda, tem dia em que nada a demove de seguir pela direita. Há de ter seus motivos – que acato, por não serem ideológicos, mas possivelmente estarem ligados ao olfato apurado. Se algo não cheirar bem, é pra lá mesmo que ela vai. Pensando bem, tem ideologia aí, sim.

O problema é que nenhum passeio é longo o suficiente para ela. Sua meta é se afastar de casa indefinidamente. Se depender dela, pegamos a Américas, a Linha Amarela, a Washington Luís, a 040 e não paramos antes do km 2000 da Belém-Brasília.

Ao mais leve indício de que eu possa estar iniciando um procedimento de retorno, ela trava. Crava as patas no chão e ergue aqueles olhos súplices de “Mas já?” – estejamos andando há 15 minutos ou há hora e meia, debaixo de chuva ou de sol implacável.

Não sei que GPS ela usa, mas é infalível. Independentemente do caminho – e eu vario sempre o caminho – basta embicar num sentido que lhe evoque a sensação de “volta” e ela liga a seta na direção contrária. Não adianta tentar a manobra da curva suave à esquerda fingindo rumar para o parcão, ou o artifício de uma falsa guinada na direção da praça, ainda fechada por causa da pandemia, onde ela gostava de correr na areia.

Ela me conhece. A alma humana, para ela, não é nenhum abismo: é óbvia como um comprimido “disfarçado” na comida, um cafuné a caminho do banheiro onde ela já farejou o maldito xampu no box.

Não pode ser só instinto ou psicologia aplicada. Suponho que haja telepatia envolvida.

Desejo

Eu desejo que morra o jornalista que escreveu que deseja que morra o presidente que deu a entender não se importar que pessoas morram. “

Confuso, incoerente? Nem tanto.

O desejo de morte manifestado pelos outros é do mal; o meu desejo de morte é do bem.

Eu desejo uma cova para o Covas (kkkkk). Mas os meus kkkkkk morrem se a cova for para o meu Messias. E vice-versa.

Só que desejo de morte não mata. Assim como desejo de comida não enche barriga.

Uma advogada recolhe printes de desejos de morte do presidente para encaminhá-los (os printes, não os desejos) ao STF.

Lamento informar, mas desejar a morte de alguém pode ser cruel, mas não é crime. Não deixa órfãos, não cria viúvos, não dá direito a obituário (se o morto presuntivo for famoso) ou a mudança da foto no FB por uma lágrima em preto e branco (se for pobre o defunto).

Eu desejo a Michelle Pfeiffer (ou o Alain Delon – uma versão 40 anos mais jovem do Alain Delon). Desejo o Renegade na vitrine da concessionária (ou o Bulgari na prateleira da perfumaria) e isso não lhes desabotoa a blusa, não lhes abre o zíper, não lhes muda a quilometragem, não faz com que exalem uma nota aromática que seja.

Sou desejoso por natureza: “O que não tenho e desejo / é o que melhor me enriquece” (Manuel Bandeira).

Meu desejo não me dá poderes sobrenaturais, talvez por eu ter me esquecido de esfregar a lâmpada dentro da qual cochilava há milênios um gênio com sobrepeso, de pantufas e turbante.

Desejo que haja paz na Terra, que a internet não caia justo agora, que o presidente se recupere, que o vizinho se dane, que o avião atrase porque estou atrasado, que ele não repare nas minhas estrias, que ela não note que pinto o cabelo – e permanecem as guerras, a Net não termina o diabo da manutenção, nem o vizinho sua musculação na sala. Ele repara nas minhas estrias, na virilha com a depilação vencida; ela repara na tinta no canto do bigode, na marca mal disfarçada que a aliança deixou no dedo ao migrar para o bolso, na tentativa desesperada de uma fantasia que me salve da perda do desejo.

Eu desejo que meu pai sobreviva, e a doença o vence.  Que minha mãe se cure, e a doença avança. Que o salário caia hoje na conta, que ainda haja sorvete no pote. Desejo que não chova, porque a estrada é de chão, mas a zona de convergência do Atlântico Sul tem outros planos. E o mundo, eppur, non si muove: não dá a mínima para o meu desejo.

 [– Fala, Zé Firmino! Veio fazer outra fezinha hoje?
– Não. Vim buscar o prêmio da mega sena que eu ganhei.
–  Ganhou não. Acumulou de novo
, Zé.
– Mas eu desejei ganhar. Pode me dar os 200 milhões em nota de 50, que pras de 100 o povo nunca tem troco.]

É horrível desejar a morte de alguém, mas disso não passa: de ser horrível.

Quando estive internado numa UTI, alguém comentou numa postagem minha “tomara que morra”. Não morri. E se melhorei tampouco foi porque dezenas tenham me desejado melhoras. O pensamento mágico é só pensamento, não ação; só mágico, sem lastro no real.

Quantas vidas teriam sido salvas com a morte prematura de Stálin, Pol Pot, Maníaco do Parque, Leopoldo II da Bélgica, Jack o Estripador? Quanta corrupção teria sido evitada com o passamento precoce de Lula, Papa Doc, Mugabe, Bokassa, Somoza – e quantas mortes decorrentes dessa corrupção? Quantos milhares não lhes desejaram a morte ou a prisão (ou a morte na prisão)?

É pena que alguém deseje a morte – não a redenção, não a recuperação. É pena que alguém prefira antagonizar com um cadáver. Que se faça todo um contorcionismo teórico quanto à relação custo x benefício de um exício (como diria o Celso de Mello). Que se considere a morte sob o ângulo da redução de danos (matar o atirador para que ele não atire na multidão).

Tão deplorável quanto desejar a morte é desejar controlar o desejo. (Ninguém controla o desejo – o próprio, muito menos o alheio).  

O desejo, como o pensamento – por mais terrível que seja – é livre.

Dark lá, sombrio aqui

Quem disser que entendeu “Dark”, a série alemã cuja última temporada estreou semana passada na Netflix, certamente estará mentindo. Porque o grande mérito da trama, que envolve viagens no tempo e entre mundos alternativos, é colocar Tico e Teco em pânico.

Nos acostumamos às novelas, em que tudo é reiterado, regurgitado, concebido de modo que se possa brincar com o gato no sofá ou levantar para pegar água na geladeira, sem perder o fio de meada. Em “Dark” todos os fios permanecem, até o último minuto, soltos – e desencapados. Piscou, perdeu. Não piscou, perdeu do mesmo jeito.

Mais ou menos como o Brasil.

Em que ano estamos? Depende. Tem hora que é 2020, tem hora que é 1964 ou 1968. Por vezes é 2018, ainda no auge da campanha eleitoral – ou nos vemos confinados em um perpétuo 1984, só que no universo paralelo do Orwell.

(…)

Em “Dark” o presente influencia o passado. Exatamente como acontece no Brasil, onde descobrimos que o nazifascismo é agora, e temos que rever o que houve na Alemanha dos anos 30 e 40. Vivemos num apartheid e até o Valter Hugo Mãe embarcou na narrativa do genocídio tupiniquim, o que exige reavaliação imediata das tragédias da África do Sul, da Armênia, do Camboja, de Ruanda.
Se na série é difícil saber quem são Mikkel, Mads e Magnus, aqui temos Weintraub, Wajngarten e Wassef, que não ficam atrás. Se lá o paradoxo é uma personagem ser avó de si mesma (ih, esqueci de avisar que tinha espóiler!), aqui a questão é se seria Chauí um Olavo de franja, ou Olavo uma Chauí de cachimbo.

(…)

“Ele não quer salvar o mundo do mal. Ele é o Mal”, diz alguém em “Dark”. É ou não é puro Brasil isso daí?
“O bem e o mal são uma questão de perspectiva”, filosofa Mikkel – ou seria algum pregador do “ódio do bem” nas redes sociais?
“Não é estranho sentirmos aversão às pessoas que são mais parecidas conosco?”, indaga-se o enigmático Adam – assumindo o que se passa na mente dos que negam peremptoriamente qualquer simetria entre o que temos hoje e o que tínhamos até alguns anos atrás.

Na política, como em “Dark”, o ontem e o hoje (e, presumivelmente, o amanhã e o depois de amanhã) não se sucedem, mas estão conectados em um círculo infinito. O eterno retorno do populismo, do fascínio pelo autoritarismo e – desgraça pouca é bobagem – do Centrão.

~

Porque hoje é sexta, n’O GLOBO.

https://oglobo.globo.com/opiniao/dark-la-sombrio-aqui-24512525

Teimosia

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina.  O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão. A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir de com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

Dialetos

– Amiga, cansei de sororidade.

– Eu também. Desapeguei.

– Ficou tão quarta-feira passada…

– Nem me fale. Quando comecei a usar, ninguém usava. Agora…

– Daqui a pouco está sendo usada até em novela bíblica da Record.

– Junto com empoderamento. Lembra do pré-lançamento?

– Lindo. Só para convidadas. Evento VIP, garçons étnicos, música autossustentável. Depois…

– Depois virou arroz de festa, que nem empatia.

– Comigo foi saberes.

– Você foi no lançamento de saberes?

– Fui, menina! Usei saberes quando só aparecia em tese de Humanas.

– Que luxo! Quando saberes chegou, eu já estava na fase da objetificação e achei que não ia combinar.

Objetificação tem que ter muito critério, ou fica over.

– Acho que cai bem com cultura do estupro e micromachismo, e olhe lá.

– Super cai bem!  E olha que micromachismo não é pra qualquer uma.

– Não mesmo. Tem que saber dosar. Tipo gaslighting.

Gasligting era tudo, né? Uma coisa de louco!

– Mas sabe que eu era mais o combo mansplaining, manspreading e manterrupting? Porque tinha uma leitura, dialogavam.

– Diferente de patriarcado e androcentrismo

– Totalmente. Androcentrismo pede, sei lá, uma atitude com mais conceito.

– Bem na vaibe da misoginia e do feminicídio.

– Isso. Se bem que eu fique mais à vontade na disparidade de gênero, sabe como? Uma coisa light, cool, fim de tarde, apperol.  Nessa linha.

– E qual é a tendência para hoje? Fiquei vendo laive da Katy Perry até de madrugada, acordei tarde e nem tive tempo de me atualizar.

Interseccionalidade.

– Jura? Amei!

– E dá pra usar com tudo.

– Amiga, só vou tirar essa máscara de avocado orgânico e começar a interseccionalizar agora mesmo.

– Mas interseccionaliza logo, porque acabei de ver que já estão usando no UOL. E quando isso acontece, já sabe, né?

– Sim. Daqui a pouco vira gratiluz.

– Vai lá. Beijo no coração, amiga! Gratiluz!

Gratiluz, amada!

Implicância

Cuidado com as suas implicâncias. Lenta e inexoravelmente, elas irão tomar conta de você e se tornar obsessões.

Minha mãe sempre implicou com edifícios sobre pilotis. Criada em casa de chão de terra batida, não sentia firmeza nas construções empoleiradas naquelas perninhas finas.  Resmungava cada vez que via um prédio desses – ou seja, resmungava sempre que ia à rua. 

Com a idade – e o Alzheimer – as vigas e pilares das construções nas encostas (trem mais comum em Minas que que chamar as coisas de trem) se tornaram uma ideia fixa. Um incômodo palpável. Era preciso distraí-la (“Olha que cor horrorosa aquela casa!”) sempre que seu olho se sentia atraído pelos monstrengos em pernas de pau encarapitados em cada aclive, declive, murundu ou pirambeira. Porque minha mãe também implicava com as cores das casas, mas os roxos, laranjas, vermelhões e verdes bandeira não eram páreo para as construções levantadas do chão.

Desde então venho pensando: qual será o meu piloti quando eu ficar velho (mais velho) e chato (mais chato)?

Tenho vários candidatos.

Os vícios de linguagem são os mais óbvios. São eles que me impedem de assistir à programação da CNN, porque minha cota diária de tolerância a barbarismos se esgota em cerca de 60 segundos.

Também tem a franja. Eu entendo a sombra verde, os óculos com correntinha, a sobrancelha imitando a logo da Nike, o pírcim no lábio – mas franja está além da minha compreensão.

Implico com gente falando alto ao celular em local público. Implico com gente falando alto. Ultimamente, dei para implicar com gente, mesmo calada, em local público – mas isso vai passar com a pandemia.

Implico com as rimas dos louvores evangélicos, sempre na base do luz / cruz / Jesus e glória / história / vitória. Tudo bem que não dê pra enfiar cuscuz, avestruz e arcabuz, nem rescisória, inflamatória e vibratória.  Mas no campo semântico de um louvor não há de faltar oportunidade para falar em belzebus e em nota promissória.

Implico com tatuagem. Com sotaque carioca em filme dublado. Com cachorro usando roupa. Com barba desenhada. Com locutor de supermercado.

Mas, correndo por fora e com grandes chances de chegar ao pódio, está a ombreira.

O que leva um ser humano do gênero macho a inflar artificialmente os ombros e ficar parecendo um jogador de futebol americano que botou um terno por cima do shoulder pad?

O Merval Pereira conta que, num voo, sentou-se ao seu lado um sujeito espaçoso, cheio de correntes de ouro e que não largava o celular, ignorando os pedidos da aeromoça para que desligasse o aparelho. Era o Wassef. Suponho que estivesse com o cabelo emplastado. E, possivelmente, com suas inseparáveis ombreiras – que o Merval não menciona, mas que não me escapariam.

A ombreira é o viagra do paletó.
A ombreira define o homem.
Diz-me se usas ombreira e eu te direi quem és.

Eu não reparo no cabelo do Guga Chacra. No olho de gatinha da Renata Vasconcelos. Na franja da Nina Lemos. Nunca reparei na peruca do Chico Xavier, nos anéis do Walter Mercado, no nariz do Juca Chaves, na boca da Cleo Pires, no busto (digamos assim) da Inês Brasil, no pescoço rabiscado do Fogaça.

A suposta participação do Wassef numa seita satânica pode dizer alguma coisa do seu caráter. Mas as ombreiras dizem tudo.

Anjos e padres

Em Minas se diz que cada vez que um casal de namorados fica em silêncio, nasce um anjo – ou morre um padre.

A ser verdade, meus primeiros namoros teriam superpovoado o céu – e dizimado o clero.

Minha primeira namorada se chamava Jane. Estávamos no pré-primário, talvez no primeiro ano. Ela era linda, tinha cabelos lisos,e imagino que tivesse uma voz igualmente lisa e linda, que receio nunca ter ouvido. Eu a namorava sem que ela soubesse, claro.

Contei à minha mãe que estava namorando.  E que Jane nunca ia às aulas às sextas-feiras.

– Vai ver, é bruxa – disse minha mãe, sem se desviar da costura.

Eu não sabia que havia relação entre bruxas e sextas-feiras. Jane – alva, silenciosa – em nada me lembrava as bruxas dos livros. Soube, depois, que ela apenas viajava com os pais todas as sextas. Por outro lado, descobri, naquele comentário, que minha mãe, com o humor característico da família, talvez não tivesse a menor vocação para ser a sogra mais amigável do planeta.

Zirlene, a namorada seguinte, também nunca soube que fomos namorados por quase um ano.

Estávamos então já na quinta série – sim, fiquei solteiro dos 6 aos 11 anos. Da Zirlene não me lembro de nada além do nome (como esquecer um nome desses?). Posso inventar agora que tinha cabelos cacheados, nariz de batata, que era baixinha. Não há de haver outra Zirlene, então será fácil localizá-la e verificar. Namoramos tempo suficiente para não trocarmos uma palavra, ainda que fôssemos colegas de turma.

Em seguida, ou em paralelo, não sei, houve a primeira Helena. Dessa me lembro bem. Era gorducha, tinha seios igualmente gorduchos – seios que nunca vi, seios apenas intuídos, mas dobrinha aquilo com certeza não era.  Devo ter uma fotografia dela, numa dessas caixas que me recuso a abrir.  Uma foto de borda serrilhada, autografada no verso, e posso dizer que namorei com a foto, não com ela.

Muito antes do Manuel Carlos, tive a epifania de que minha musa, quando eu me tornasse escritor, se chamaria Helena.  Eu já lera sobre a Marília de Dirceu, a Dulcineia de Dom Quixote, e em qualquer história que eu viesse a escrever – porque eu já sabia que escreveria – minha heroína seria Helena, não como a de Troia, mas como aquela, gorduchinha, de Araguari.

Houve então Dulcineia. Que, claro, nunca tinha ouvido falar em Dom Quixote e deve ter rido muito do garoto desengonçado, magricelo, que um dia, depois de muito ensaio, ousou lhe perguntar se ela tinha lido Cervantes. Não, não tinha. E eu me senti o cavaleiro da triste figura.

Veio então outra Helena, que amei só pelo nome, e porque me parecia impossível não amar alguém que se chamasse Helena. Ou Cecília.

Mas Cecília era nome non grato lá em casa – Cecília era a noiva do meu pai, até ele se encantar por uma Conceição. Se Jane era uma bruxa só por faltar às aulas nas sextas-feiras, imagino que passaria uma Cecília nas mãos da minha mãe.

Tive notícias da Jane décadas mais tarde – casada, uma filha, que não sei se terá herdado seus poderes mágicos. De Zirlene e da primeira Helena, nem fumaça. Dulcineia há de ter encontrado um Sancho Pança – ou um moinho. A segunda Helena eu revi num daqueles shows de 1º de maio, no Riocentro. Veio falar comigo, me apresentou o namorado. Conversamos ali, em cinco minutos, mais que nos dois anos do nosso namoro sem palavras.

Foram namoros sem beijos, sem mãos dadas, sem uma sílaba sequer.  Namoros unilaterais, com aquele silêncio solitário incapaz de fazer brotar anjos e fenecer padres. No máximo provocariam bocejos em coroinhas ou acúmulo de tecido adiposo em querubins. 

Se um dia for a Minas, e for à missa, repare no tédio dos coroinhas ao bambolear o incensório. Depois levante os olhos e preste atenção ao ventre dos querubins, às suas coxas roliças, às dobrinhas dos braços, às suas discretas papadas. Veja com que esforço as asinhas os sustentam no ar.  

É tudo obra minha, com a cumplicidade involuntária de Jane, Zirlene, Helena 1, Dulcineia, Helena 2. Só a partir de Maria de Fátima é que entrei no ramo da multiplicação de anjos e extermínio de autoridades eclesiásticas, atividades nas quais sou muito bom até hoje.

Love is in the air

Dia dos namorados, muita gente sem namorado/a/x querendo se arrumar, muita gente namorando e querendo dar um apigreide, respirar novos ares ou, quem sabe, apenas trocar de encosto.

Do alto das minhas seis décadas – boa parte delas passando o dia dos namorados chupando dedo – me sinto no direito de dar alguns conselhos a quem queira desencalhar até a meia-noite:

💔 Não tente ser sexy.

Quem é sexy é sexy até palitando os dentes. Quem não é pode esquecer aquela história de morder os lábios, murchar a barriga, forçar uma lordose, chacoalhar os cabelos como se estivesse num caraoquê dos Engenheiros do Hawaii.

Seja você mesmo/a/x, por mais que isso reduza suas chances. Bancar o/a/x sexy vai é acabar de vez com as poucas chances que lhe restam.

💔 Não tente parecer mais inteligente do que é.

Se o namoro engatar, a verdade virá à tona antes de a ciência viabilizar o transplante de cérebro – e muito antes que o seu plano de saúde cubra esse tipo de procedimento.

Não use palavras cujo significado você desconheça, ou vai ser um equinócio daqueles.

Não diga que viu os filmes do Foucault, que adorou os romances do Tchaikovsky – principalmente se não souber soletrar tchaicosque ou pronunciar fucô.

Assumir a ignorância e demonstrar interesse contam muito mais que qualquer falsa erudição.

💔. Não fale do/a/x ex.

Piadas de fanho, doenças infecciosas na família e histórias do/a/x ex são abortivos naturais de relacionamentos.

Pesquise no gúgol: há bilhões de coisas sobre as quais você pode falar. Ex, definitivamente, não é uma delas.

Seu/sua/sux pretendente/a/x não está nem um pouco interessado/a/x nas pessoas/pessoos/pessoxs com quem você andou se pegando.

Fale de si ou (melhor ainda!) queira saber dele/a/x.

Se ex merecesse ser mencionado/a/x, não teria virado ex.

❤️ O primeiro passo para arrumar alguém é não precisar desesperadamente de ninguém.

Estar bem sem ninguém é condição fundamental para se tornar interessante aos olhos do outro. Se você não aguenta ficar na sua própria companhia, por que outra pessoa te aguentaria?

Daí a dar uma de autossuficiente vai uma enorme distância. Você não precisa do outro para ser feliz, mas estando com o outro a felicidade é mais plena. Ou, pelo menos, a vida sexual diversifica um pouco.

❤️ O namoro vem – não precisa forçar.

Conheça, converse, convide, aceite o convite, vá para a cama – ou para o banco de trás -, ensaboe as costas dele/a/x, faça massagem nos pés, descubra interesses em comum (e interesses incomuns).

Se tudo isso for bom (principalmente a massagem nos pés), e se os interesses incomuns não forem muito bizarros, aí, sim, considere a possibilidade de transformar isso em namoro.

Boas amizades ou transas maravilhosas podem ir a pique se você tentar, por carência e/ou ansiedade, fazer delas o que elas não são.

❤️ Ache seu nicho de mercado.

Por que alguém escolheria você e não outro/a/x?

Porque você tem um diferencial. Você lava mais branco, tem tração nas quatro rodas, forno autolimpante, lactobacilos vivos. Tem mais vitaminas, proteínas e sais minerais, não tem gordura trans, não amarrota nem perde o vinco. Você não desbota, não solta as tiras, funciona 24 horas, é satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Você tem enxague em quatro velocidades, frost free, o maior porta-malas da categoria. Você tem energia de dá gosto, é tudo que o dinheiro não pode comprar, o fino que satisfaz, vale por um bifinho e tem mil e uma utilidades. Você desce redondo, é impossível comer um/a/x só.

Sabe o que isso significa, não? Seja único/a/x. Elogie as sobrancelhas, em vez da bunda ou do peitoral. Sugira Ibitipoca em vez de Búzios. Cite Barthes (se você realmente conhecer Barthes, souber como se escreve Barthes e conseguir pronunciar Barthes) em vez de frases de autoajuda (feiques) da Clarice Lispector.

💞 Goste de “coisas de homem” (se for mulher) ou de “coisas de mulher” (se for homem) – e de coisas de homem e de mulher se for trans ou se quiser mesmo ser uma pessoa interessante.

Fuja do óbvio, do estereótipo. Atitude é isso – e não, como muita gente imagina, fazer selfie com decote e duck face, ou andar com metade da cueca aparecendo.

💘 Agora, se, mesmo assim, continuar sozinho/a/x, não tente se iludir com aquele papo de que é porque você é seletivo/a/x.

Conforme-se.

Seletivos, no caso, são os outros.

Bueiro

– Se já estão todas, todos e todes aí, podemos dar início a esta reunião extraordinária do Patrimônio Histórico e Cultural para decidir sobre os monumentos que merecem permanecer nos espaços públicos, os que vão para a reserva técnica dos museus e os que podem ser fundidos para fabricação de tampa de bueiro.  Deixa eu ver minha lista aqui. Hmmm… estátua equestre de Pedro I, na praça Tiradentes.

– Misógino, macho tóxico e abandonou afetivamente os filhos.

– Bueiro?

– Bueiro. Mas podemos deixar o cavalo.

– Ok, a estátua equestre vira uma estátua equina.  Estátua de Pedro II, na Quinta da Boa Vista.

– Escravocrata, gordofóbico…

– Gordofóbico?

– Já viu fotos da imperatriz, que ele trocou pela esbelta Condessa de Barral? Gordofobia raiz.

– Bueiro?

– Bueiro.

– Já que estamos na família imperial, temos a Princesa Isabel na avenida dela mesma. Essa fica, não é? Afinal, é mulher e…

– Sem chance. Vivia cercada de mucamas e se referia a uma de suas escravas, chamada Marta, como “negrinha de quarto”. Bueiro. E na Abolição, para aprender.

– Ok. Tiradentes, na Primeiro de Março, em frente ao palácio dele mesmo.

– Escravocrata. Perguntem pro Laurentino Gomes. Bueiro.

– Será que não vai escapar nem o Machado de Assis, ali em frente da Academia Brasileira de Letras?

– Nem pensar. Machado nunca assumiu sua negritude. Seus protagonistas são todos brancos. Capitu era quilombola? Brás Cubas era afrodescendente? Ele só tinha olhos para a burguesia da Rua do Ouvidor. Bueiro, e bem longe do Cosme Velho.

– Gente, vai faltar bueiro nesta cidade para tanta tampa! Para poupar tempo, melhor mandar fundir todas as estátuas de personalidades do século 19 para trás, não acham?

– Claro que não. Tem Zumbi dos Palmares, ali na Presidente Vargas. Essa fica.

– Mas Zumbi não tinha escravos? O Leandro Narloch levanta essa questão e….

– Nossa, quase quatro da tarde! Desculpe, mas marquei manicure e com essa demanda represada da pandemia, não posso me atrasar. Semana que vem a gente retoma, tá? E podemos começar pelo Drummond, ali no calçadão de Copacabana.

– Ah, tão bom passar pela orla e encontrá-lo ali, no meio do caminho…

– Esquece. Ele colaborou com o Estado Novo. Fascista.

– Bueiro?

-Bueiro. Fui!

Números

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos.  O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando no reencontro o abraço que não pudera dar na despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

– Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis – Moacir mais imóvel que os outros.  Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

– Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.