Um conto de fadas moderno em 10 atos

Fada

1.
Drigo é um homão da porra.
Sensível.
Desconstruído.
Gosta de cozinhar.
Relaxa fazendo crochê.
Participou do curso de gestante, fez força no parto junto com a Nanda.
Tirou licença para cuidar dos bebês.
Faz trança, bota laço, ajeita a sapatilha e se emociona na apresentação de balé do Júnior.
Nanda é uma mulher forte.
Decidida.
Empoderada.
Trabalhada na sororidade.
Relaxa fazendo krav maga.
Abriu mão da licença maternidade para se dedicar a um projeto da empresa.
Leva a Manu no muay thai, no jiu jítsu e a fantasia de Frida no carnaval.
2.
Drigo começou depilando as axilas por achar mais higiênico.
Depois depilou o peito porque sentia que aquele tufo saindo pelo colarinho exalava masculinidade tóxica.
A turma com quem malhava glúteos achou estranha a depilação apenas do umbigo pra cima e aí ele tirou o resto.
Gostou do resultado.
Sobrancelha, só para acertar o desenho, porque tudo tem limite.
Nanda começou parando de depilar as axilas porque achava opressor.
Abandonou a depilação da virilha porque era uma sujeição aos padrões estéticos do patriarcado.
Acha que as mulheres devem se aceitar como a natureza as fez, e se exibe, orgulhosa, no instagram, com as canelas felpudas.
3.
Drigo não se sente à vontade para tomar a iniciativa no sexo. Acha que tem um quê de assédio, sei lá.
Tem se queixado com os amigos que a Nanda já não o procura mais como no início do relacionamento.
Nanda precisa que o secretário a lembre da data de aniversário do casamento.
Chega quase sempre cansada do trabalho. Com tanto problema na cabeça, não tem muito pique pra transar. Pelo menos não em casa.
4.
Júnior odeia balé, mas entendeu que um menino deve ser obediente.
Manu acha o muay thai muito chato, e preferia uma Barbie esquiadora à Frida artesanal.
Manu aprendeu granjetê com o Júnior. Tem deixado os coleguinhas do muay thai desconcertados – e com hematomas.
Júnior aprendeu chave de braço, joelhaço e faca de mão com a Manu. Ninguém mais se mete com ele quando o vê saindo de tutu.
5.
Drigo tem lido algumas revistas masculinas, que dão dicas para resolver o problema das unhas quebradiças e sugestões de como apimentar o relacionamento.
Nanda se cadastrou num aplicativo de encontros – com nome falso – e tem tido encontros casuais na hora do almoço.
6.
Júnior se assumiu hétero, parou de descolorir o cabelo e ouviu da mãe – após um longo suspiro inconformado – que, haja o que houver, ela estará lá para apoiá-lo, independentemente das suas opções.
Manu ainda está indecisa, como toda adolescente. Ouve pop coreano às escondidas e se tranca no banheiro para usar alguns dos cremes hidratantes do pai.
7.
Nanda tem sentido umas pontadas no peito e a sensação de que carrega o mundo nas costas, e ninguém reconhece isso.
Drigo luta contra a balança e passou a frequentar um grupo que se explora o conceito de broderidade.
8.
Nanda ficou ainda mais poderosa com look grisalho.
Drigo não consegue assumir os fios brancos.
9.
Manu gosta de um menino que conheceu no futebol, mas por enquanto prefere manter um namoro de fachada com uma colega de faculdade.
Júnior foi morar com a coreógrafa, e milita contra o matriarcado opressor.
10.
Drigo sabe que fez o melhor que pôde pelos filhos, mas imagina como tudo seria diferente se tivesse investido na carreira de engenheiro mecânico.
Nanda sabe que foi uma boa provedora, que não deixou faltar nada em casa, mas tem hora que… deixa pra lá. As crianças estão criadas, cada uma seguiu seu caminho – não o que ela esperava, mas fazer o quê? O que importa é que hoje tem Flamengo na final, e a cerveja está no ponto.

Rio de Janeiro, de novembro a março

enxurrada

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Rio de Janeiro, de novembro a março


 

Como nasce um texto? Ninguém perguntou, mas eu respondo.
Não sei.

Talvez “Das entrelinhas de um livro
Da morte de um ser vivo
Das veias de um coração.
Vem de um gesto preciso
Vem de um amor, vem do riso
Vem por alguma razão” – como canta o Ney Matogrosso, na canção de Alzira Espindola e Itamar Assumpção.

Pois ganhei um disco da Mísia, e viajei para Minas ouvindo tangos e fados. Um deles me fisgou. O poema de Horácio Ferrer para um tema do Astor Piazzola.

Falava de “un domingo de otoño por la plaza San Martín”, de “un sideral subterráneo Plaza de Mayo a Saturno”.

Em Juiz de Fora, me deparo com uma foto do Eduardo Campos: o Rio de Janeiro todo azul, como aquele que, há tantos anos passou em minha vida, e meu coração se deixou levar.

Voltei para o Rio com o “Prelúdio para el año 3001”

(“Arrodillado en mi Río de la Plata lindo y sucio
Me amasaré otro incansable corazón de barro y sal”)

tocando em loop, e a foto na cabeça.

À imagem daquele Rio de Janeiro arquetípico, visto do alto do Dona Marta, foram se juntando deuses, orixás, crimes, rios mortos ou moribundos, minhas primeiras memórias das grandes chuvas de 66 e 67 (as “chuvas atípicas” que acontecem desde o tempo de José de Anchieta), e bateu uma ternura ambígua por esta cidade tão vaidosa e tão maltratada. Que em 2020 elegerá novo prefeito – para dar as desculpas de sempre, e permitir novas Muzemas, novas mortandades de peixes nas lagoas, novos vazamentos de esgoto em Ipanema, velhos casarões se decompondo na Gamboa.

Veio assim, quase em versos, anotados, aos borbotões, no celular (se descer a serra de Petrópolis, não digite: se digitar, pelo menos fique na pista da direita e atento ao radar).

“A inspiração vem de onde?
Vem da tristeza, alegria.
Do canto da cotovia
Vem do luar do sertão.
Vem de uma noite fria
Vem, olha só, quem diria
Vem pelo raio e trovão.”

Foi assim que brotou o texto que era para virar poema, tango, declaração de amor. Tomou outro rumo, imprevisto. Feito chuva de verão.

Encargos

encargos

Ando preocupado com a uberização do trabalho.

Com essa coisa de a pessoa não ter que bater ponto e poder fazer o próprio horário.

Perder o direito de ficar se comparando ao colega que faz corpo mole e tem o mesmo salário.

Ou não ir trabalhar sem precisar “estar de atestado”.

Aqui em frente ao meu prédio há sempre uma fila de ex-engenheiros, ex-lutadores de MMA, ex-encarregados de serviços gerais, todos aguardando corrida. E pela ciclovia, enquanto passeio os cachorros, passam dezenas de bicicletas com sua preciosa carga de pizzas, lasanhas, iaquissobas e cocas litro.

Como eu, muita gente lamenta a instabilidade desses subempregados, sem as garantias da CLT.

Mas isso tem jeito – e não depende de nenhuma mudança na legislação, de nenhum protesto com vidraça quebrada, ponto de ônibus depredado, pichação de bem tombado pelo Patrimônio Histórico ou pneu incendiado em via pública.

Pediu comida pelo Rappi?
Chamou o Uber?
Contratou um frila?
Na hora que tiver que pagar, pegue a calculadora e adicione:

+ 20% de INSS
+ 1,5% de SESI
+ 1,0% de SENAI
+ 0,2% de INCRA
+ 0,6% de SEBRAE
+ 2,5 de Salário Educação
+ 3,0% de Seguro contra acidentes de trabalho
+ 8,0% de Fundo de Garantia
+ 1,0% de SECONCI
+17,99% de repouso semanal remunerado
+ 4,8% de feriados
+ 0,92% de auxílio enfermidade
+ 10,82% de 13º salário
+ 0,07% de auxílio paternidade
+ 0,72% de faltas justificadas
+ 1,23% de dias de chuvas
+ 0,11% de auxílio acidente de trabalho
+ 7,69% de férias gozadas
+ 0,03% de salário maternidade
+ 4,93% de aviso prévio indenizado
+ 0,12% de aviso prévio trabalhado
+ 6,09% de férias indenizadas
+ 5,05% de depósito de rescisão sem justa causa
+ 0,41% de indenização adicional

Calcule 16,8% de reincidência de INSS, SESI, SENAI, INCRA, SEBRAE, salário educação, seguro contra acidente de trabalho, FGTS e SECONCI sobre o repouso remunerado, os feriados, os auxílios enfermidade e acidente de trabalho, o 13º, a licença paternidade, as faltas justificadas, os dias de chuva, as férias gozadas e o salário maternidade.

Isto feito, calcule 0,44% dessa reincidência sobre o aviso prévio trabalhado e do FGTS sobre o aviso prévio indenizado.

Pronto.

Para adiantar o seu lado, aí vai um espóiler: isso dá 116,09%. É quanto você deve adicionar ao custo da entrega do iaquissoba ou do percurso entre a estação do metrô e a sua casa no Voyage do Adilson, que perdeu o emprego numa estartape e virou motorista para pagar a pensão da filha e a faculdade particular (à distância).

Se o uber deu R$ 35,00, pague mais R$ 40,63 de encargos. No caso de não ter trocado, deixe como gorjeta, quando o aplicativo pedir para você avaliar a corrida, que vai acabar saindo por R$ 75,63.

Fazendo isso, você desprecariza o trabalho sem precisar vandalizar nada nem atrapalhar a vida de ninguém.

Notas de rodapé:

1) Estes percentuais de encargos sociais sobre mão de obra referem-se ao Rio de Janeiro, setembro/2019, horista, sem desoneração. Para outros estados, mensalista ou com desoneração, outra tabela do SINAPI deverá ser consultada;

2) Sim, a empresa fica com uma parte do valor pago ao motorista. Se souber quanto é, é só descontar e fazer o cálculo apenas sobre o que o Adilson ou o moço do Rappi realmente recebem;

3) Não, o combustível, a manutenção do Voyage, o IPVA, nada disso é mão-de-obra. Nem a troca de pneu da bike. Pode descontar também;

4) Sim, o Brasil tem 30% de neoliberais insensíveis e 40% de isentões bundamole que não vão querer arcar com os encargos sociais. Fique à vontade para pagar a parte deles (defender grandes impostos trabalhistas exige grandes responsasbilidades…) ;

5) Tá, eu sei que com a Uberbras, a Rappibras e a Frilabras (estatais, com Presidente, Conselho de Administração, Diretoria Executiva, Conselho Fiscal, Departamento de Governança Corporativa e Compliance – cargos de confiança indicados pelo Centrão em troca de apoio na Câmara e no Senado) e o SindiUber, o SindiRappi e o Sindifrila (ligados à CUT) nada disso estaria acontecendo. Mas enquanto o verdadeiro petismo não chega ao poder – esse petismo que saiu não era o petismo verdadeiro, ele foi contaminado pelo acordo espúrio com o Centrão -, faça a sua parte.

5) Claro que a coisa não é simples assim, é mais complexa do que isso, patati patatá, mas você entendeu o espírito da coisa. Se é contra essa precarização do trabalho, que leva o Adilson a passar o dia no trânsito, levando desconhecidos pra lá e pra cá, e, com isso, conseguir pagar a pensão da Manuela (lembrei o nome da filha dele) e o EAD na Estácio, é só pegar o valor da corrida e multiplicar por 2, 16. Porque é isso que você faz com qualquer outro serviço – do segurança do metrô à moça do caixa no restaurante de comida a quilo.

Custa um pouquinho mais caro e é bem menos divertido que botar máscara, estilhaçar vidraça do Itaú, depredar lixeira e botar fogo em ônibus – mas faça sua cota de sacrifício. De vândalo, aqui no Rio, chega o prefeito.

Xerebecanto

xerebecanto

Dom de línguas quem tem são os poliglotas. Esses que ralam na Aliança Francesa, no Goethe, no Duolingo, no Ciciêiêi, Os que falam (e entendem) inglês, francês, espanhol, alemão, russo – porque falar é fácil; entender é que são elas … Dom de línguas estranhas têm os que aprendem húngaro, basco, finlandês, vietnamita, português com a nova regra do hífen.

O que se ouve nas igrejas pentecostais tem outro nome: charlatanismo. Ou, em termos científicos, glossolalia.

Do grego “glóssa” [língua] + “laló” [falar], a glossolalia é um fenômeno que a psiquiatria e a linguística aplicam a situações em que um indivíduo, teoricamente tomado de fervor religioso, desanda a falar numa língua que nem ele (nem ninguém) conhece.

É diferente da Xenoglossia (do grego xeno [estrangeiro] + glosso [língua] que é quando alguém fala uma língua (existente) que nunca foi aprendida (meu sonho de consumo com o alemão).

Existe, ainda, a livre vocalização, que é mais ou menos o que fazem os bebês quando começam a balbuciar. Ou os compositores quando acaba a inspiração para a letra e completam a melodia com lalalá, lererê, chananá ou yeah yeah yeah.

Na Bíblia, em Pentecostes, teria acontecido o fenômeno de Xenoglossia. Tomados pelo Espírito Santo, os apóstolos – que eram pessoas simples, sem muita leitura – começaram a falar em diversas línguas. Com isso todos os presentes à festa puderam ouvir a palavra de Deus, cada um em seu próprio idioma.

Logo, esse “dom de línguas estranhas” não era exatamente o dom de línguas estapafúrdias, mas de línguas de outros povos.

Os pentecostais (cujo nome deriva, como já deu pra perceber, de Pentecostes) parece que não pegaram bem o espírito da coisa. Em vez de falar búlgaro, sânscrito, tupi ou tagalog, falam xerebecanto – que não é língua de ninguém e que ninguém entende. O seu sentido – como disse o filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov – é ser ininteligível.

Chico César é expert nesse idioma: “Ô amaradzáia zoê. Dzáia, dzáia A rin fingá do ran ran”. E o finado Skank complementa: “Deriráum daum daum, dererum dáu du dáum, deriraum daum daum”. E o João Bosco afirma que “dunga gaguiê gaguncê dagunci dungá gaguiê aibibuloba aidubuloba ai ai ai”. E o Carlinhos Brown completa: “Magamalabares acqua marã no parquinho oxaiê”.

Seria o xerebecanto uma linguagem poética, acessível apenas aos anjos e aos iluminados da MPB?

Há controvérsias. Primeiramente, porque o xerebecanto não é uma língua. Não possui estrutura sintática: é mera repetição de fonemas de língua-mãe do pastor (mesmo ritmo, mesmas pausas, mesmos padrões de consoantes e vogais).

Um pastor de Coxiporé do Norte falará fluentemente “Decanta labaxuria cantararamás”, mas jamais profetizará “zczęściewzględny chrząszczpszcz” ou “mézeskalácssütés viszontlátásra” – que pastores tchecos e húngaros, respectivamente, tirariam de letra.

Há teses de mestrado sobre o assunto. Sílabas vocalizadas aleatoriamente têm o mesmo grau de complexidade de “revelações” como “naconte merecanto nana naconderé, na conderemaná saconde conde que mené nem façá”,

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.” (1 Coríntios, 13). Ou seja, barulho, gugugu dadadá. Nhenhenhém, blábláblá.

Não mate seu anjo da guarda de vergonha alheia. Ao se dirigir a ele, faça-o em português ou em qualquer das línguas encontráveis no Gúgol Translêitor. Caso contrário, é capaz de ele não te atender, por achar que é só a Baby Consuelo chamando os filhos (“Nanashara, Sarashiva, Zabelê, Riroca!) pra janta.

Senhor

rabugento

Detesto que me chamem de “senhor”.
Acho falta de respeito.

Por acaso estou ficando com ruga, barba branca, bolsa nos olhos, careca, barrigudo e rabugento?
Ok, mas isso não quer dizer nada.

Se eu não fosse ateu, podia até resmungar que “Senhor é só Deus”, mas nem esse argumento eu tenho.
Sem contar que resmungar é coisa de velho, e eu só resmungo quando não tem ninguém mais novo que eu por perto.
O que, inclusive, é cada vez mais raro.

“Senhor” é tratamento devido a, sei lá, gente velha.
Quem já passou dos 40.
Quer dizer, dos 50.
Oops, dos 60.

E quanto mais velha é a pessoa que me chama de “senhor”, mais furibundo eu fico.

Furibundo não, porque furibundo é expressão de velho. Mais irado eu fico. Se bem que parece que “irado” não significa mais o que significava no meu tempo.

Aliás, é bom evitar dizer “no meu tempo”, que é sinal claro de que o tratamento “senhor” é mais que devido.

Diga “ainda há pouco, nos anos 70”, mas não diga “no meu tempo” ou “antigamente”.
Pode dar a impressão que você é saudosista.

E saudosismo é demodê.

A propósito, tem pouca coisa mais demodê que falar “demodê”.

~

Desde que começaram a me chamar de “senhor” (e já faz algum tempo), estabeleci umas regrinhas básicas para quem quer tentar envelhecer com dignidade:

1. Não usar tênis chamativos. Laranja, rosa-choque, verde limão, tudo bem. Mas daqueles de luzinha, nem pensar.

2. Não usar gíria. Gíria entrega a idade, bicho.

3. Não se envolver emocionalmente com quem tenha menos de um terço da sua idade. Primeiro porque as chances de alguém com um terço da sua idade querer se envolver com você são remotas. Segundo, eu esqueci qual era o segundo motivo. Mas eu lembro. Até o final do texto eu lembro.

4. Não se paramentar todo(a) para malhar da Bodytech. Fica muito boko moko. Prefira o bom e velho moleton pra ir malhar na praça, onde tem sempre uns aparelhos coloridos rodeados de viúvas e divorciadas (e um ou outro velhinho assanhado), com quem se pode entabular um colóquio supimpa sobre osteoporose e disfunção erétil.

5. Não usar nunca as palavras “entabular”, “colóquio” ou “supimpa”. Elas são anacrônicas. Aliás, a palavra “anacrônica” também é anacrônica, apesar de ser supimpa.

6. Sair do feicebuque. Nem pensar em ter tuíter, instagrã. Muito menos tínder, grinder ou par perfeito. Todos esses lugares fazem a gente se sentir muito mais velho do que já é. Sem contar que não dá pra decorar tanta senha.

7. Ah, sim, o segundo motivo para não se envolver com alguém com menos de um terço da sua idade é que isso faz a gente se sentir ainda mais velho. Principalmente quando esquece alguma coisa e tem que fazer aquelas pausas infinitas no meio de frase que fazem a gente parecer apresentador do Masterchef anunciando o eliminado da prova.

E se com um aspecto tão jovial quando o seu, com esse seu jeito jovem de espírito e prafrentex de ser, alguém ainda te chamar de “senhor” (ou “senhora”), não hesite: desça uma bengalada na cabeça dela para ela aprender a respeitar os mais velhos.

(publicado originalmente em novembro de 2016)

Receita de batata frita da Tia Rosa

batata

Batata frita é muito simples de fazer. Mas antes é fundamental lembrar que os sumérios não conheciam a batata, muito menos a batata frita. Não há qualquer registro de receita de batata frita em escrita cuneiforme. Tampouco os babilônios, na Mesopotâmia, nos legaram qualquer documento acerca dessa receita. Não há, entre os egípcios, seja nas tumbas, seja nos papiros, nenhum hieróglifo que signifique batata frita – ou french fries, como era chamada pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América, entre eles John Adams, Benjamin Franklin, John Hancock, Samuel Tuntington, Thomas Jefferson, Artur Middleton, Richard Stockton, John Witherspoon e Charles Thomson.  Entretanto, mesmo povos anteriores, como os neandertais, deixaram gravadas inscrições rupestres retratando bisões, mastodontes e outros animais pré-históricos, mas nenhuma imagem que, à luz da moderna antropologia e da hermenêutica, possa ser identificada como batata frita.

Peço vênia para lembrar aqui que tampouco há registro de consumo de batata frita na cantina da saudosa Biblioteca de Alexandria, louvada pelo autor argentino Jorge Luís Borges, nascido em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899 e falecido em Genebra, em 14 de junho de 1986, e cujas cinzas jamais foram recuperadas – ressalto aqui que me refiro às cinzas da grande biblioteca, não as do escritor, que encontra-se sepultado no Cemitério de Plainpalais, na Suíça, tendo sua tumba uma inscrição em  inglês antigo, tirada do poema Battle of Maldon, que pode ser traduzida como “não tenhas medo de nada”.

É de vital importância apontar que Gengis Khan, nascido por volta de 1162 nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal, na Mongólia, possivelmente jamais provou batata frita. E nisso ele se iguala, hermeneuticamente, a Alexandre o Grande, ou Alexandre III da Macedônia, que, nos curtos 33 anos de sua existência, tampouco provou esta iguaria, apesar de haver emprestado seu nome ao verso de 12 sílabas, formado de dois hemistíquios, tão caro aos parnasianos, como Théophile Gautier  Théodore de Banville e o saudoso Sully Prudhomme, autor do poema Le Zénith, publicado na Revue des deux mondes, em 1876.

Escavações em sítios arqueológicos nos revelaram ossadas quase completas de um Pukyongosauro na Coreia do Sul, de um Megalossauro bucklandii na Inglaterra e do Tropeognathus na bacia do Araripe, no nordeste brasileiro, e que se perdeu no lamentável incêndio do Museu Nacional, que ocupava o Paço Imperial Quinta de São Cristóvão, residência da família real desde a proclamação da independência do Brasil, em 1822, por Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, Príncipe Real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.  Mas nem um único fóssil de batata frita foi encontrado.

Nenhum dos filósofos gregos, de Aristóteles a Empédocles, de Anaximandro a Tales de Mileto, jamais colocou uma batatinha frita na boca. Mesma sorte tiveram Plutarco, Zenão de Eneia, Leucipo, Cleante de Assos, Teofasto, Alcmenao de Crotona e Aristóxenes, o que nos leva a crer – salvo melhor juízo – que a batata frita nada teve a ver com o apogeu do mundo helênico.

Não quero me estender demasiadamente, mas não posso deixar de lembrar que também nem os inuites, os bantos, os hunos e os txucarramãe sabiam o gosto da batata – e consequentemente, da batata frita – que é originária da Cordilheira dos Andes e só chegou ao resto do mundo após a descoberta da América pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, cujo sobrenome significa “pombo”, uma ave columbiforme da família Columbidae. Dito isso, para não me alongar mais, pega a batata, descasca, pica e frita.  Essa é a minha receita.

 

 

Geringonça & gambiarra

brasil-portugal

Confira a coluna de hoje n’O Globo:

Geringonça & gambiarra


 

Brasil e Portugal já mantiveram uma relação abusiva de colônia e metrópole. Depois casaram de papel passado, como Reino Unido, e se separaram (mais ou menos) amigavelmente, com a mesma família reinando lá e imperando aqui. Tornaram-se repúblicas, penaram simultaneamente sob um “estado novo” (autoritário, nacionalista) e fizeram cada qual sua revolução (neste caso, em direções opostas; a deles mais revolucionária que a nossa).

Continuamos unidos pelas tradições e pelo lirismo, separados pelo oceano e pela língua (ou, ao menos, pelos acordos ortográficos). Formamos um sistema binário – dois fados desencontrados, dois amantes desunidos.

No final de 2015, pouco antes de no Brasil se abrir o processo que poria fim a quase uma década e meia de petismo, em Portugal os partidos de esquerda se juntavam para chegar ao poder. Costurou-se ali um acordo instável, de futuro imprevisível – daí se dizer, com desdém, que aquilo não era um governo, mas uma geringonça.

Lá, a esquerda se uniu e venceu. Aqui, unimo-nos contra a esquerda – ou, pelo menos, contra aquilo que dizia ser esquerda e fazia tudo que a esquerda sempre acusara os outros de fazer. A consequência é termos no Brasil algo que se poderia muito bem chamar de gambiarra.

A geringonça de lá eppur si muove. A gambiarra daqui até ilumina – dá para ver uma luz no fundo do poço – em que pese o risco permanente de curto circuito.

Portugal e Brasil podiam formar uma dupla sertaneja: Geringonça & Gambiarra, cada um fazendo o contrário do que era de se esperar – a direita emperrando o crescimento com crises que ela mesma inventa; a esquerda reduzindo o déficit público e fazendo o país andar.