Percepções

Flávio acordou e cutucou a mulher.

– Amor, estou sentindo uma coisa esquisita.

– Eu falei que aquela maionese do jantar não estava com uma cara muito boa – murmurou ela, sem tirar a cabeça do travesseiro.

– Não, amor. Estou me sentindo honesto.

A mulher se virou e o encarou, agora apoiada no cotovelo.

– Para com isso, Flávio. Brincadeira tem hora. Que honestidade é essa de que você está falando? Você, honesto?

– A honestidade é uma percepção minha.

Pegou o celular na cabeceira e fez uma ligação, ansioso.

– Luís, me desculpe te acordar a esta hora, mas é que…

– Eu já tava acordado. Tive um pesadelo e não consegui dormir de novo, com uma sensação esquisita.

– De honestidade?

– Não. De inocência. Acordei com percepção de inocência!

– Já falou com o Zanin?

– Na hora! Liguei pra ele e perguntei se não podia usar isso como argumento de defesa. Ele falou que sim, que tava pensando justamente nessa hipótese, porque ele também tinha acordado com uma percepção de eficiência, uma percepção de que ganha todas as causas.

– Será que…

– Não sei. Deixa eu ligar pra cumpanhêra Dilma.

Dilma já estava de pé, de taiê vermelho e tudo, escovando os dentes.

– Companheiro, acordei perplecta. Com uma percepção, no que se refere ao golpe, de que o golpe não colou, e que eu ainda mando nesta joça. Chamei o Bessias, pedi a limusine, mandei prender as emas e estou indo para o Alvorada. Espero que não seja só uma percepção minha, porque não tive nem tempo de chamar o Kamura, passar o taiê e não sei onde guardei a cópia da faixa.

O fenômeno era planetário. Nalgum ponto de Hollywood, Adam Sandler tivera uma percepção de que era engraçado e a família já chamara o médico. Na Suíça, Paulo Coelho era atendido na emergência, onde repetia “Ich bin talentosisch, Ich habe diese Perzeptizionen”.

Embaixo do chuveiro, Alexandre de Moraes, com a percepção de ter cabelos secos e quebradiços, reclamava do xampu da mulher, para cabelos oleosos. Maju se olhou no espelho, horrorizada com a percepção de ter que perder 20kg para caber em qualquer dos 125 tubinhos que tinha no closet.

O caos se instalara.

– Mas, seu guarda, é uma percepção minha de que a velocidade máxima nesta rua é de 180 km/h!

– Amor, me diz que não é só uma percepção minha, e que você teve mesmo orgasmos múltiplos mortais carpados com essa rapidinha de agora de manhã…

– Como assim tá faltando? É uma percepção minha que a pitaia tá a R$ 4,99 o quilo!

A ONU convocou o Conselho de Segurança. Trump tinha acabado de fazer um pronunciamento oficial afirmando que a vitória era uma percepção dele e que não precisavam nem contar os votos. Queiróz teve a percepção de que era um limão.

Propostas afins

Amigues,

Vocês já se divertiram à beça com a proposta estapafúrdia de se implantar uma linguagem neutra que, trocando um “O” por um “E”, acabaria com todes es problemes de machisme, misoginie, homofobie, transfobie etcétere.

Mas a ideia, em si, não é ruim. O que estraga é ser pouco abrangente e se limitar à questão de gênero. Há várias outras formas de opressão linguística – e a maior delas é… a opressão linguística.  Eu aproveitaria que todos os livros terão que ser reescritos e mandaria ver numa linguagem realmente inclusiva.

Muita gente não entende, por exemplo, a diferença entre “mau” e “mal”. E deve se sentir muito mau contando a história do lobo mal para os filhos, sem saber quando está usando um adjetivo ou um advérbio.

Solução: uniformizamos a grafia, e daqui pra frente será “mao”. Tanto fará ser bom ou mao, andar bem ou mao acompanhado. Isso no singular, porque no plural continuará havendo males que vêm para o bem, e os bons acabarão pagando pelos maus.

De uma penada só, lá se vão 25% dos erros de português.

“Mas” e “mais” são outra desgraça que pode estar com os dias contados se adotarmos a grafia única “maes”.

O corretor ortográfico vai criar caso nos primeiros dias, maes nunca maes teremos dúvidas se é para usar a conjunção adversativa ou o advérbio de intensidade.

Outros 25% de erros eliminados.

“Menos” ou “menas”? Menes.

“Meio” ou “meia”? Meie, seja adjetivo, advérbio, numeral ou substantivo.

“Há” ou “a”? Ah!, seja artigo, verbo, preposição ou interjeição – e ah crase vai fazer companhia ao trema, ah fita para máquina de escrever e ao estado civil de “desquitada” no limbo das coisas que perderam ah razão de existir ah muito tempo.

Ah menes que você seja uma pessoa meie lenta, já terá percebido que ah inúmeras vantagens nessas alterações – ah maior delas sendo outros 25% de correções a menes ah fazer nas provas do Enem, nas matérias dos jornais, nos tuítes de ministros da Educação.

Finalmente, a pergunta que não quer calar: por que o português tem que ser tão complicado? Deve haver um porquê. Talvez porque um monte de filólogos mortos tenha decidido assim – mas por quê?

Não importa. Na reforma contra o preconceito linguístico tudo vai virar “pq”.

Pq? Pq sim. Não tem que ter pq.

E lá se vão os 25% de erros restantes.

Por isso, pensem duas vezes antes de criticar seus amigues progressistes e as fórmulas mirabolantes que eles inventaram para resolver os problemas do mundo com uma canetada. Eles podem ser çem noção mas não estão çem por cento errados. (O “ç” também é uma mão na roda, né não?)

O dilema das rodas

Estou pensando em fazer um documentário em que ex-executivos da Volkswagen, da Fiat, da Ford, da Toyota e, por que não, da Gurgel, se penitenciam diante das câmeras por terem desenvolvido automóveis.

– Eles provocam desastres – lamenta X, desviando o olhar após uma pausa dramática.

– Nós sabíamos dos riscos e, ainda assim, colocamos aceleradores – diz, enxugando uma furtiva lágrima, o engenheiro Y.

Os herdeiros de Daimler e de Benz falarão da inveja causada pelas Mercedes inventadas por seus antepassados.

– Já havia ressentimento demais no planeta. Mas vovô foi insensível e… – não conseguirá terminar o depoimento.

Sim, a indústria automobilística é perversa. Mauzona, maldosa e malvada.

– Fui alto executivo da Ferrari. Por mim, teríamos produzido apenas ambulâncias. E carros do Corpo de Bombeiros. Mas havia pessoas gananciosas e o que poderia ser um lindo projeto acabou se perdendo.

No cenário frio (este documentário pede cenários frios), com pequenos trechos do meiquinhofe (este documentário pede maquiadores tirando o brilho da pele de um, reristáilistes ajustando as mechas de outra), um a um os ex-ciiôus lavarão roupa suja, a centrifugarão e farão enxague completo com amaciante e Lysoform.

– Claro que estava nos planos, desde o início, que ladrões usariam nossos carros nas fugas – confessará K (inicial fictícia), engenheiro de produção da Nissan.

– E que agroboys tunariam nossos produtos, incluindo uma potente aparelhagem de som para ouvir dupla sertaneja no volume máximo, com o porta-malas aberto, no domingo, no Parque Barigui – continuará W (inicial mais fictícia ainda), gerente de projetos da Jeep.

– Devíamos ter resistido e abortado o Ford Bigode enquanto era tempo, mas… fomos fracos.

O documentário levantará questões sobre segurança (“Os erbegues não foram instalados nos calhambeques para não atrapalhar a estética. Eles teriam salvo a vida de milhares de melindrosas inocentes”), sobre liberdade (“Sim, o cinto de três pontos foi pensado como forma de manter as pessoas mais tempo presas dentro dos veículos, ouvindo propaganda no rádio. A JB FM e a Super Rádio Tupi injetaram muita grana nesse projeto”) e sobre manipulação (“O viagra foi adiado por décadas para que pudéssemos continuar vendendo Simca Chambords, Mavericks e Camaros amarelos”).

Alguém lembrará que carros também servem para transportar hortifrútis para o Ceasa, levar as crianças à escola, visitar a avó em Taubaté, ver corrida de submarino na Niemeyer. Será um contraponto necessário – afinal, há de ser um documentário isento, neutro e imparcial.

Se fizer sucesso, já tenho engatilhado aqui um sobre a indústria do papel (“Sabíamos que iam imprimir livros de autoajuda, e continuamos produzindo celulose assim mesmo”) e sobre a indústria fonográfica (“Larguei tudo e decidi virar monge tibetano quando saiu aquele disco da Ana Carolina e do Seu Jorge. Isso foi há 15 anos, e até hoje pratico a autoflagelação, para tentar expiar minha culpa.”).

Alguém aí tem algum contato na Netflix pra me passar?

~

[Disclêimeres: Este texto contém provocação. Sim, eu sei que a questão não é tão simples assim. Claro, o assunto é muito mais complexo. Lógico, não dá pra tratar esse tipo de coisa tão levianamente. Evidente que é impossível comparar uma coisa com a outra. Concordo que você entendeu tudo e eu não entendi nada. Fascista é a mãe!]

A etimologia nossa de cada dia

Cu” vem de “culus”, que não é especificamente o ânus, mas inclui a região carnuda a ele adjacente, as nádegas. E “eco” é o mesmo de “ecologia”, “ecossistema”: o habitat, o domicílio.  Logo, cueca é, literalmente, “a casa do cu”.

“Cu”, nesse sentido de “o traseiro”, deu também origem a “recuar” (retroceder, andar para trás), “acuar” (encurralar), “cueiro” (pano que envolve o bebê da cintura para baixo) e “culatra” (o fundo do cano da arma de fogo). Lembrando que “encurralar” não tem nada a ver com o isso: deriva de “curral” (que tanto pode ser o lugar de guardar o gado quanto os carros – no caso, as bigas romanas).

Bunda” não vem do latim, mas do quimbundo “mbunda” (ou “muna”) e quer dizer bunda mesmo (e também quadris). Não tem nenhuma relação com “abundância”, que vem do latim “abundare” (“ab” = fora + “unda” = onda), ou seja o que transborda, que existe em grande quantidade, como as ondas no mar.

Nádega” é que vem do latim “natica”, mas não significa nada além de nádega mesmo.

Poupança” tem origem mais interessante, a mesma de “apalpar”: o latim “palpare”. Para saber se podia gastar, a pessoa apalpava a bolsa de moedas – daí “poupar” no sentido de “economizar”, “gastar com moderação”.

Propina” é de origem grega, formada por “pro” = a favor + “pinein” = beber. Ou seja, a boa e velha “cervejinha”, um trocado para se beber alguma coisa. (“Gorjeta” tem origem parecida: vem de “gurguis” = garganta, que também deu origem a gárgula, gargarejo, gargalo, gargalhada; gorjeta era uma propina para “molhar a garganta”). “Suborno” tem a ver com o ato de, furtivamente (“sub”), enfeitar (“ornar”) alguém, presenteando disfarçadamente.

“Corrupção” vem do latim  “corrumpere“ (destruir, estragar), que, por sua vez, deriva de “rumpere” (romper, quebrar, arrebentar).

Centrão” vem de “centro” – do latim “centrum” (a ponta seca do compasso), que, por sua vez, tinha vindo do grego “kentron” (ferrão, objeto pontiagudo”).

Supõe-se que “Chico” venha do latim “ciccus”, a membrana entre os grãos da romã”, uma coisa pequena, sem valor. Em espanhol, “chico” quer dizer “pequeno” (e, por extensão, “menino, criança”). No Brasil, “Chico” é o hipocorístico (apelido carinhoso) para Francisco – possivelmente tendo se originado desse “cisco” no final do nome, o que nos leva de volta ao “ciccus” do latim.

Já “Rodrigues” é um patronímico (literalmente, “nome do pai”), significando “filho de Rodrigo” (assim como Fernandes é “filho de Fernando”, Gonçalves é “filho de Gonçalo” etc). Rodrigo, por sua vez, tem origem germânica – e em todos os saites de nomes de bebês (ou seja, fontes não muito confiáveis) consta que signifique “príncipe poderoso”.

Dinheiro” tem sua raiz na expressão latina “denarius nummus”, depois abreviada para “denarius” (a moeda de prata que valia dez moedas de cobre, chamadas “asses”).  “Ass”, em inglês, quer dizer “burro” (o animal e/ou a pessoa burra), mas também o traseiro, o cu – e aí voltamos ao início deste texto sem pé nem cabeça que tentou juntar coisas nada a ver umas com as outras: cueca, propina, dinheiro, bunda, Chico, Rodrigues, corrupção cu e centrão.

Faltou a palavra “fezes”, do latim “faex” = excremento.  Mas aí era ir muito fundo no tema.

Conflito de gerações

– Maria Eduarda, eu seu pai precisamos ter uma conversa com você.

– Já sei. Vão começar tudo de novo.

– Não, Maria Eduarda, não vamos começar tudo de novo. Vamos continuar a conversa que vimos tentando ter com você faz tempo, mas você é rebelde, não quer conversar nem ouvir seus pais.

– …

– Quando é que você vai parar com essa teimosia? Até onde vai seguir com essa vontade de ser “diferente”?

 – Mãe, eu sou diferente!

– Não, Maria Eduarda, não é. Você é uma menina de 17 anos, igual a todas as meninas de 17 anos, com os mesmos anseios de toda menina de 17 anos. Não faz sentido você continuar se recusando a fazer uma tatuagem! Todas as suas amigas estão tatuadas da cabeça aos pés, e você aí… com a pele intacta. Até onde você vai querer ir com isso, Maria Eduarda?

– Mãe, eu não gosto. Eu acho feio. Só isso.

– Maria Eduarda, que mal faz uma mandala? Um ying e yang? Uma caveira?

– Mãe…

– Uma borboleta na nuca não mata ninguém, Maria Eduarda! Um dragão, uma fênix, qualquer coisa, mas… acho horrível ver você assim, com a pele toda… toda…

– Mãe, não começa a chorar, por favor!

– Choro, sim, Maria Eduarda. Choro de vergonha. Onde foi que eu errei na sua criação? Todas as filhas de todas as minhas amigas estão completamente rabiscadas e você aí, com a pele… virgem.

– Mas eu não sou mais virgem, tá, mãe?

– Nem sei como alguém conseguiu se interessar por você, com a pele imaculada desse jeito. No mínimo foi um daqueles rapazes esquisitos que querem ser dentistas ou – deusmilivre – engenheiros civis. Desse jeito que você anda, de cabelo castanho, com roupa sem um rasgão ou um pircinzinho que seja, você nunca vai arrumar um grafiteiro, um uebidizáiner, um crosfiteiro. Ou um confeiteiro.

– Mãe, fica tranquila…

– Como eu posso ficar tranquila sabendo que você não vai ao tatuador uma vez por semana, nem que seja para fumar narguilê? Que não tem uma serpente subindo pelo pescoço, uma flor de lótus na virilha, uma frase em latim no omoplata, nada!

– Mãe…

– Faz pelo menos uma tribal no tornozelo, filha!

– Mãe, eu…

– Um infinito no pulso, uma âncora no antebraço, qualquer coisa…

– Mãe, eu acho que…

– Você não sabe a vergonha que eu passo na frente das minhas amigas na yoga. Todas têm filhas tatuadas. A Gislaine tem uma filha que fechou o braço. Fechou o braço, sabe o que é isso? A filha da Marta tatuou toda a fauna do cerrado, em protesto pelos incêndios no Pantanal. Ela não é boa em Geografia, eu sei, mas o tatuador fez uma jaritataca linda no ombro dela, e um teiú que sobe pelas costelas e vai até o seio. Quando ela colocar implante, o teiú vai ficar com uma cara enorme, linda. Você vai colocar implante, não vai?

– Não, mãe, não vou.

– Maria Eduarda! Sem tatuagem aos 17 e sem implante antes dos 20! O que você quer da vida, minha filha? Sabe como as pessoas vão te olhar? Como uma aberração!

– Mãe, eu…

– Tatua nem que seja um “Fellyppe, amor eterno” no cóccix, por favor!

– Eu não conheço nenhum Fellyppe, mãe.

– Não interessa. Tatua só para arrepender e tatuar alguma coisa por cima. Aposto que todas as suas amigas já se arrependeram de uma tatuagem dessas e tatuaram outra maior por cima.

– Sim, todas fizeram isso. Aos prantos.

– Viu? Custa fazer? Escolhe um nome qualquer, porque vai fazer outra por cima mesmo. Bernnardho, Artthur, Karollayne, qualquer coisa. Mas tatua, exibe, chora dizendo que se arrependeu e faz uma de rosas vermelhas, ou de uma onça, em cima. Pronto. É só isso que estou te pedindo. Para eu não ser a mãe da menina esquisita que não tem tatuagem. Faz isso por mim, Maria Eduarda. Pelo seu pai, que vem fazendo uma poupança para essas tatuagens desde que você tinha 15 anos.

– Mãe…

– Um código de barras na coxa, filha… O que é que custa? Um ideograma, uma logomarca, um pacote de miojo, qualquer coisa…  Você quer chegar à velhice como sua avó, sem parecer um muro de periferia? Sem lembrar uma obra do Dali, com relógios derretendo porque o peito caiu?

– Tá, mãe, semana que vem eu faço.

– Promete, Maria Eduarda?

– Vou pigmentar aquela manchinha branca que eu tenho no peito do pé, aí fica da cor da pele.

– Faz uma caranguejeira, filha! Fica lindo uma caranguejeira bem realista subindo pelo peito do pé!

– Não, mãe. No máximo, uma joaninha.

– Bem colorida?

– Ok, mãe, uma joaninha bem colorida. Já posso voltar a estudar?

– Pode. Te amo, Maria Eduarda. Mesmo você sendo estranha desse jeito, mamãe te ama. Mas por que você não aproveita que vai fazer a joaninha e coloca um pírcim no umbigo?

Chá de revelação

Os amigos vão chegando. Alguns, avessos a modismos, não escondem o desconforto.

– Mas precisava mesmo fazer chá de revelação? Antigamente não tinha nada disso.

– Não tinha, tia Cotinha. Agora tem. Os tempos são outros.

Grupinhos se formam pelos cantos, sem ninguém se aproximar muito da mesa de comidas, em cujo centro há uma caixa envolta em celofane. Pelo protocolo – a coisa podia ser novidade, mas já tinha protocolo – comidas e bebidas só serão servidas depois do estouro do balão.

– E tem chá mesmo, ou é só modo de dizer?

– Só modo de dizer, tia. Não é porque é chá que tem chá. Igual chá de cadeira, chá de sumiço.

– Pelo menos uns biscoitinhos eles podiam adiantar, né?

Tia Cotinha estava de dieta, e não tinha interesse em revelação nenhuma. Só e tão somente em poder comer sem moderação, fosse o que fosse, enquanto as atenções estivessem voltadas para outra coisa.

– Sabe que cores vão usar?

– Não faço ideia. Pelo jeito, melhor não esperar nada convencional.

– Convencional é a última coisa que espero aqui.

– Só falta ser bege e dourado, e a gente que adivinhe o que cada cor quer dizer.

Alguém se aproxima da mesa dos salgados, pede silêncio, desembrulha a caixa, e dela salta um balão bege preso por uma fita dourada.

– Não falei que ia ter bege e dourado?

– Já pode pegar os salgadinhos?

– Não, tia, precisa estourar o balão primeiro.

Sobe a música. É “My way”, em ritmo cigano.

– E eu achando que o dourado era o pior que podia acontecer…

– Essa música é enorme e ainda repete. Tem mesmo que esperar até o fim pra pegar a comida?

Como se Deus ouvisse os apelos da tia Cotinha, a música é interrompida ainda na primeira parte, bem no “The record shows, I took the blows / But I did it my way” e uma voz anuncia:

– Dona Cotinha, sendo a senhora a tia favorita, queremos convidá-la a estourar o balão e…

Tia Cotinha não se faz se rogada. Com agilidade inusitada, toma a agulha das mãos do mestre de cerimônias, posiciona-se o mais perto possível dos pães de queijo, se inclina em direção ao balão, e puff! voam quadradinhos cor de chumbo por sobre a mesa de salgados.

Ecoam discretos aplausos e alguém aumenta de novo o som do celular – os Gipsy Kings agora na parte do “I ate it up and spit it out / I faced it all and I stood tall”.

Tia Cotinha se apossa da bandeja antes que outro parente mais afoito o faça.

– Papelzinho cinza significa o quê? – pergunta, com um pão de queijo pela metade, ao moço de terno preto que comanda o evento.

– Cremação. Se fosse enterro seriam papeizinhos roxos.

– Ah, tá.

A sobrinha, prima do morto, só percebe quando o segundo pão de queijo já foi devorado e o resto da travessa está bem embiocado no fundo da bolsa.

– Tia Cotinha!

– Vamos embora, Maria Alice. E no meu, por favor, contrata um bufê melhorzinho, que o pão de queijo tá borrachudo. E nada de cinza e roxo, pelamordideus! Quero púrpura e prata. Púrpura, tá entendendo, Maria Alice? Púrpura!

Inclusive

Muita gente criticou um vídeo sobre linguagem inclusiva, com as novas regras para a neutralização do idioma.

Machistas estruturais, homofóbicos crônicos, transfóbicos empedernidos, todos profundos desconhecedores do mistérios da linguagem e da neurolinguística, sentiriam que estariam sendo privados desse instrumento de opressão que é a língua de Camões, Vieira, Machado, Dilma e Carluxo.

Serenados os ânimos, apaziguados os espíritos, todos já devem ter compreendido que a linguagem neutra só trará benefícios, pondo fim à violência lexical e à polarização verbal.

Quem antes passava pela Glória, pela Avenida Atlântica e pela Praça do Ó, abria o vidro do carro e gritava “Traveco filho da puta!”, agora poderá abrir o vidro do carro e gritar “Traveque filhe de pute” – e isso não constituirá mais nenhuma ofensa, porque todo o caráter insultuoso terá sido neutralizado. Em vez de lhe erguer o dedo médio, as profissionais do sexo acenarão felizes, como misses na passarela, sentindo-se acolhidas na sua diversidade.

Quem poderá se sentir agredido/a/e ao ser chamado/a/e de “arrombade”? De “canalhe”, “escrote” ou “babaque”?  Toda a carga negativa, advinda do caráter sexista da língua, terá sido zerada, reduzida a pó.

Ao fim das manifestações contra e pró Freixo ou Crivella, Lula ou Bolsonaro, Fefito ou Giromini, a turma de vermelho e a turma de amarelo poderão se reunir para um chope na orla ou uma catuaba selvagem na Praça São Salvador, se tratando cordial e neutralmente de “petiste corrupte” e “bolsomínie fasciste”. Não haverá briga nem na hora de rachar a conta, porque o “garçom de merde” admitirá que houve um pequeno equívoco naqueles dois zeros a mais na quantidade de pedidos, pedirá desculpas em nome daquele “corne do caixa” e todos cantarão, com cantos e contracantos, o hino nacional e a internacional socialista.

Chame-o de “escrote”, e o guardinha não multará seu carro estacionado irregularmente.

Diga que ele é um “babaque”, e o segurança te deixará entrar (“Mas só desta vez, hein?”) sem máscara no shopping.

Explique que não curte “gorde”, e a moça não ficará magoada – e tampouco você se sentirá humilhado se ela fizer comentários sobre seu “mau hálite”, “falta de pegade” e “pau pequene”.

Por tudo isso, seu idiote, volte lá no vídeo e retire tudo o que disse. Graças àquele troca-troca de vogais, teremos finalmente a serenidade, o entendimento e o respeito de que precisamos para conviver civilizadamente. Tá esperando o quê, caralhe?

 #paz

#passarpanonão

Agilizando as próximas lacrações:

“Odeio a expressão “BATER AS BOTAS”, considero militarista,  autoritarista e fascista. Bater as botas é encostar o coturno direito no coturno esquerdo, o que é uma opressão ao proletariado, e quem é que historicamente anda descalço?  O homem negro, a mulher negra e a trans negra. É associar o pé no chão a algo menor. Reflitam! #baterasbotasnao

Odeio a expressão “ESTAR DANDO SOPA”, considero capitalista, gurmetista e racista. Dar sopa é uma atividade filantrópica, e quem é que historicamente recebe ajuda de um prato de sopa? As mulheres negras. É associar a fome com a vontade de comer, numa dieta com menos calorias. Reflitam! #estardandosopanao

Odeio a expressão “LAVAR ROUPA SUJA”, considero higienista, elitista e racista. Lavar roupa suja é uma atividade doméstica, e quem é historicamente a lavadeira? As mulheres negras. É associar a sujeira a algo que tem que molhar, esfregar, torcer, centrifugar, enxaguar, botar pra quarar e pendurar pra secar. Reflitam! #lavarroupasujanao

Odeio a expressão “PERDER A LINHA”, considero carretelista, elitista e racista. Perder a linha é uma atividade de corte e costura, uma das tarefas de quem cerze, caseia, chuleia e prega botão, e quem é historicamente que não dá ponto sem nó? As mulheres negras. É associar a agulha, linha, retrós, alfinete, carretilha, ilhós, sianinha e overloque a algo remendado. Reflitam! #perderalinhaonao

Odeio a expressão “VOLTAR À VACA FRIA”, considero sexista, especista e racista. Voltar à vaca fria é uma atividade rural, uma das tarefas da pecuária, e quem é historicamente que volta à vaca fria? O boi insaciável, que não entende o “não é não” da vaca, e depois parte para o cowlighting de não apenas chamar a fêmea da espécie de vaca como dizer que ela é fria. E essa vaca eventualmente é preta, feita com sorvete de creme e Malzbier. É associar a vaca ao vácuo. Reflitam! #voltaràvacafrianao

Odeio a expressão “VIAJAR NA MAIONESE”, considero xenofobista, elitista e racista. Viajar é uma atividade de rico, e fascista não gosta de ver pobre andando de avião, e uma das tarefas dos atendentes do McDonalds é entregar sachê de maionese, e quem é historicamente a atendente do McDonalds? As mulheres negras. É associar dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim, a algo muito menor do que aparece na imagem meramente ilustrativa. Reflitam! #viajar namaionesenao

“Odeio a expressão “ARMAR UM BARRACO”, considero armamentista, antifavelista e racista. Armar um barraco é colocar uma escopeta dentro de uma habitação de baixa renda, que é historicamente um lugar onde moram os operários. E quem é operário? O filho, ou marido, ou vizinho das mulheres negras. É associar comunidade e violência. Reflitam! #armarumbarraconao

… and the Oscar returns from…

O Comitê de Desatribuição do Oscar se reúne para decidir que estatuetas serão tomadas de volta por descumprir, retroativamente, as regras artísticas de concessão da maior honraria do cinema.

– Vamos lá. “Rain Man”.

– Fica com a estatueta. 50% dos dois protagonistas são autistas, grupo sub-representado.

– Mas ambos são machos brancos héteros. E não consta aqui que as figuras principais dos bastidores sejam mulheres, LGBTQs ou pessoas com deficiência.

– Ok, tira a estatueta.

– “Conduzindo Miss Daisy”.

– Fica, total. Protagonistas são uma mulher e um afroamericano! 100% de protagonismo para grupos sub-representados!

– Uma mulher hétero, da oligarquia dominante e um afroamericano em situação de desvantagem social, em posição subalterna. Sem chance.

– Ok, tira a estatueta.

– “O silêncio dos inocentes”. Psicopata é grupo historicamente desfavorecido, não?

– Sim, e mulher no FBI também.

– Mas o psicopata faz bullying da agente Starling, e a caipirofobia deve ser combatida.

– Sem contar que o vice-psicopata arrancava, literalmente, o couro das mulheres.

– Toma a estatueta de volta e ainda paga multa.

– “Lista de Schindler”. Até que enfim uma que fica!

– Um alemão, sem lugar de fala, que rouba o protagonismo dos judeus? Nem que a vaca cacareje em iídiche!

– “Forrest Gump”. Vamos deixar “Forrest Gump”, por favor.

– Filme dirigido por macho, com roteiro de macho, baseado em livro de macho, estrelado por macho. Preciso dizer mais alguma coisa?

– “Coração Valente”. Ops, foi maus. Tem Mel Gibson. Nem se todo o elenco de apoio fosse de aborígenes albinos canhotos com sobrepeso daria para salvar. Temos que tomar a estatueta, a caixa e a flanelinha. Pulemos para “Titanic”. Caso complexo…

– É um filme do bem. Representa o naufrágio do capitalismo. Traz à tona a luta de classes. E o macho morre no final.

– Mas a mocinha sobreviver agarrada a um pedaço de pau… Sei não. Achei uma metáfora muito infeliz. Teria sido lindo todas as passageiras sobrevivendo de mãos dadas, numa ciranda aquática sob a Aurora Boreal.

– Sem contar que a mocinha era uma aristocrata entediada. A joia que ela jogou ao mar, com o risco de ser engolida por uma leoa marinha, poderia ter sido usada para angariar fundos para o #metoo. Sororidade zero.

– “Gladiador”…

– Devolve.

– “Amadeus”..

– Devolve.

– “Rocky, um lutador”…

– Tu tá de sacanagem comigo, né?

– Sorry. “O poderoso chefão”.

– Máfia é minoria?

– Na Alerj, não.

– Estamos falando em Hollywood. Porque aqui a gente tem que ponderar. São imigrantes, e imigrante conta ponto.

– Mas imigrante macho e branco.

– Macho, branco e pobre.

– Que ficou rico…

– Mas o Dom Corleone tinha uma deficiência física na bochecha, lembra?

– E o Al Pacino era baixinho. Galã baixinho é minoria.

– Vamos deixar “O poderoso chefão” em análise.

– “West side story”. Minorias étnicas e working class desafiando os padrões impostos pela sociedade burguesa estadunidense!  

– O casal principal era hétero.

– Mas a mocinha era latina!

– E foi se interessar por um branco? Palmiteiras não passarão!

– “Asas”, será que passa?

– “Asas”?

– Oscar de 1929. Primeira edição. Estrelado pela Clara Bow. Tem superação no roteiro. Ela é motorista de ambulância. Imagine, em 1929, uma mulher com carteira de motorista!

– E ela fala coisas importantes sobre a condição da mulher, discute o machismo, a estrutura falocêntrica do patriarcado?

– Não, até porque é um filme mudo.

– Mulher calada? Sem voz? Manda buscar a estatueta de volta. Now!

Étimo, que vem do Grego ‘etymon’, “sentido verdadeiro”

Ele desaba para um lado, com o suor escorrendo na testa.
Ela toma fôlego, e murmura, ainda arfante.

– Uau! Você foi formidável…

– Sério? Tão ruim assim?

– Não. Foi formidável. Sensacional.

– Ah, tá. É que “formidável” vem do latim “formidabilis, e significa “o que causa medo, terrível”.

– É? Não sabia. O que eu quis dizer é que você foi bárbaro.

– Desculpe. Não quis ser grosseiro com você.

– Mas não foi!

– Você disse que fui bárbaro. E bárbaro, do grego “barbaros”, quer dizer “estrangeiro, estranho, ignorante”.

– Imagina! Eu te achei ótimo. Um homem com pegada, porém intelectualmente sofisticado…

– Como assim? Eu não sou falso!

– Não falei que você é falso!

– Falou. Disse que sou sofisticado, e “sofisticado” vem de “sophisticare”, que é o mesmo que “alterar, adulterar, modificar com má intenção”, e de onde, inclusive, vem a palavra “sofisma”.

– Não! Eu quis dizer é que você é um homem ao mesmo tempo viril e fino (no bom sentido, claro!), do tipo que a gente não pode deixar escapar.

– Mas eu não estou usando capa.

– Hã?

– “Escapar” vem do latimexcappare”, de “ex” (movimento para fora) + “cappa” (capa) e o sufixo “are” (que indica ser um verbo). Ou seja, escapar é livrar-se da capa. A menos que você se refira à camisinha…

– Não, não. Já estou até arrependida de ter pedido para você pegar essa famigerada dessa camisinha.

– Mas famigerada – que é uma palavra latina, composta de “fama” + “gerere” – quer dizer algo afamado, que goza de boa reputação. E saiba que achei você muito esquisita

– Esquisita? Eu? (Cata as roupas no chão). Tô fora!

~ Espere! “Esquisito” tem origem no latim “exquisitus“, “procurado com atenção”, portanto, “de escolha especial, coisa muito boa” e… (ela bate a porta). Droga, de novo!

~

Moral da história: nunca vá para a cama com um etimologista. Ele sempre dará um jeito de explicar a origem das palavras – e acaba por complicar tudo. Aliás, “complicar” e “explicar” têm a mesma raiz, do latim “plicare” (ato de dobrar um papel), com os prefixos “com” (em companhia de) ou “ex”(para fora de), e é de onde também vieram suplicar, duplicar, explicitar e até de “cúmplice”, no sentido de… ok, deixa pra lá.